Um Mês: Jeep Renegade passa a álcool e desce a serra

Motor ganhou eficiência e obteve bom consumo em viagem; problemas de ordem eletrônica têm incomodado

Texto e fotos: Felipe Hoffmann

 

Com uma viagem ao litoral norte paulista, o Jeep Renegade Longitude fez sua esperada estreia em rodovia na terceira semana do teste Um Mês ao Volante. O período também marcou, como é nosso hábito em modelos flexíveis, a mudança de combustível (de gasolina para álcool) a fim de mensurar o comportamento e o consumo do motor E-Torq de 1,75 litro. É por aí que começamos.

O uso de álcool trouxe um pouco mais de vibração em marcha-lenta, sobretudo com ar-condicionado ligado. É normal o motor flexível vibrar mais com álcool, por trabalhar com maior avanço de ignição. Tal vibração poderia ser reduzida com um retrabalho de coxins — eles a transmitem do motor para a estrutura, que funciona como um grande amplificador. O ruído do motor também pode ser facilmente notado no uso rodoviário, pois em diversas situações o motor precisa buscar rotação para vencer o grande peso e fornecer o desempenho desejado.

Em regime moderado o motor até sustenta rotações baixas, como 2.000 rpm a 100 km/h em sexta marcha. Bom recurso é o controlador de velocidade permitir escolher a velocidade numericamente no painel, em vez de perseguir com o pedal para depois gravar. Foi muito boa a absorção da suspensão nos trechos ondulados de concreto, mostrando-se bem acertada para movimentos rápidos e curtos. O ruído de vento é bem isolado, apesar de se notar alguma turbulência no para-brisa (de desenho mais plano e vertical que a regra) e nos enormes retrovisores.

 

O Renegade mostrou boa estabilidade na serra e consumo melhor que o esperado; o motor tem obtido maior eficiência com álcool que com gasolina

 

Na semana o Jeep rodou 815 quilômetros, sendo 362 km em rodovia, com média geral de 8,3 km/l de álcool. Em rodovia obteve bons 11 km/l na ida ao litoral e volta, com direito a trânsito na subida da Rodovia dos Imigrantes. Na ida, que inclui grande trecho do Rodoanel e a descida de serra, chegamos ao bom consumo de 12,2 km/l. No retorno foram 10 km/l, adequados para seu porte. No circuito urbano a média geral ficou em 6,9 km/l, com pior marca de 4,3 km/l em voltas pelo bairro.

O rendimento por litro de álcool no uso urbano tem ficado ao redor de 69% do aferido com gasolina, diferença semelhante à dos dados declarados pelos padrões do Inmetro — ou seja, o motor é um pouco mais eficiente com álcool, visto que a relação de poder calorífico é de 66%. No uso rodoviário, o dado com álcool pelo Inmetro é 71% daquele com gasolina, ou seja, a eficiência com o combustível verde se acentua. É coerente: em rodovia o motor fica praticamente em plena carga em sexta marcha, condição que com gasolina leva a maior tendência de detonação e obriga a atrasar a ignição.

 

 

E já que falamos de consumo, o tão apedrejado Renegade e seu motor E-Torq merecem um direito de resposta. O pequeno SUV obteve 12,2 km/l de álcool rumo ao litoral norte em 180 km, com descida da Imigrantes e inúmeras lombadas em um trecho da Rio-Santos. O Jeep Compass (mais pesado, mas com motor mais moderno) fez 11,4 km/l no mesmo trecho. Pela relação entre os combustíveis, pode-se esperar perto de 17 km/l para o Renegade com gasolina, melhor até que o Peugeot 3008 no mesmo trecho (16,9 km/l). Já no trecho de 40 km com muitas lombadas o menor Jeep fez 10,4 km/l, e o maior, 9,7 km/l. Nesse caso, a estimativa do Renegade com gasolina daria 14,6 km/l (o 3008 fez 15,6 km/l).

Apesar de sua eficiência nessa situação, o peso acaba sendo um grande fator de influência no consumo desse carro, fazendo motor e transmissão saírem de sua melhor zona de eficiência quando há maior mudança de velocidade. No uso urbano seu consumo é bem mais elevado que o de concorrentes mais leves, como Honda HR-V e Citroën C4 Cactus (veja comparativo), pois toda hora o motor precisa de alta rotação para acompanhar o ritmo imposto. Por outro lado, ele nos faz recordar uma regra da Engenharia: o motor tem cerca de 30% de influência no consumo do carro; o resto vem de peso, aerodinâmica, resistência ao rolamento dos pneus, eficiência da transmissão, consumo de agregados e outros.

 

O peso elevado aumenta o consumo nas variações de velocidade, mas ajuda o Jeep a embalar: em desacelerações, é comum errar o ponto e precisar dos freios

 

Dirigindo o Renegade, nota-se que ele vai muito mais longe que os concorrentes quando se tira o pé do acelerador, como ao avistar uma lombada ao longe. Diversas vezes “erramos” o ponto de tirar o pé, exigindo frear, pelo fato de manter mais o embalo. Isso é causado pelo maior peso, claro, mas também por um bom trabalho de redução de atritos do conjunto mecânico e dos pneus. Da mesma forma na descida de serra, quando se reduz a marcha, mesmo perto de 4.000 rpm, falta freio-motor para manter a velocidade.

Embora possa incomodar alguns a necessidade de rotações — e o ruído que isso acarreta —, não houve falta de potência em nenhum momento, bastando usar o acelerador de acordo. Isso indica uma curva de torque favorável a altos regimes, apesar dos sistemas de variação (do coletor de admissão e do tempo de abertura das válvulas) empregados. O comportamento dinâmico foi um destaque: basta esterçar o volante que ele aponta para dentro da curva, com seu acerto de neutro a sobresterçante.

 

Apesar da eficiência na viagem, o peso influencia muito seu consumo: no uso urbano ele gasta mais que os rivais, pois o motor precisa de alta rotação

 

O ponto negativo da semana foi a sucessão de pequenas falhas eletroeletrônicas. A central de áudio insiste em recusar a conexão do celular para uso do Apple Car Play, como na avaliação da Fiat Toro 4×4 — e de outros carros do grupo com telefones Android. Ambas as portas USB em diversas ocasiões não transmitiram energia suficiente para carregar o celular, que ficava ciclando entre carregando e não carregando a cada 5 segundos. O indicador de nível de combustível não mostrou nível máximo após o abastecimento: ficou no mesmo ponto, entre cheio e 3/4, por 150 km.

Tivemos ainda por três vezes, ao pegar o carro de manhã, o ar-condicionado totalmente desregulado, com o lado do motorista ajustado para temperatura mais baixa possível e o do passageiro na mais alta possível, sem qualquer explicação (não, nenhuma criança entrou no carro nesses períodos). Tirando isso, o sistema trabalha bem e tem opção de baixa velocidade com fluxo e ruído bem pequenos, podendo-se escolher desde uma pequena brisa até um tufão.

 

Central de áudio que não se conecta ao celular, portas USB que não carregam o telefone, marcador de combustível que não foi até o cheio: probleminhas

 

Temos notado um ruído parecido com o de transmissões automáticas antigas, semelhante a peças girantes em altas rotações, como em carrinhos de fricção. Ele é mais ouvido em velocidades baixas, por volta de 2.000-2.500 rpm e em marchas baixas. Primeiro achamos que estivesse atrelado à temperatura do fluido da transmissão, mas depois notamos que desaparece ao desligar o compressor do ar-condicionado. Ao religar, leva um tempo para o ruído voltar, mostrando que não tem relação com a transmissão e sim com o ar-condicionado.

 

 

De resto, um pneu furado demonstrou a eficácia do monitor de pressão do Renegade. Rodávamos em cidade quando o painel indicou um pneu com baixa pressão. Fizemos um pouco de movimento de pêndulo, para tentar descobrir qual era o pneu, mas nada de o comportamento dinâmico do carro mudar. Ao parar no posto, não havia nenhum pneu com “barriga” que indicasse baixa pressão. Ao recalibrar os pneus, fomos descobrir que o traseiro esquerdo estava com 22 lb/pol².

Constatamos como é importante e eficiente o sistema de aviso, embora seja do tipo indireto, que mede a diferença de rotação entre as rodas usando o sinal captado pelos sensores de velocidade, os mesmos do ABS. Ele conseguiu reconhecer tal variação, ainda que o veículo estivesse com rodar normal, permitindo saná-la antes que a segurança fosse afetada.

Na quarta e última semana continuaremos com álcool. Traremos análises de desempenho e estabilidade e contaremos da surpresa na indicação de consumo no computador de bordo.

Semana anterior

 

Terceira semana

Distância percorrida 815 km
Distância em cidade 453 km
Distância em rodovia 362 km
Consumo médio geral 8,3 km/l
Consumo médio em cidade 6,9 km/l
Consumo médio em rodovia 11,0 km/l
Melhor média 12,2 km/l
Pior média 4,3 km/l
Dados do computador de bordo com álcool

 

Desde o início

Distância percorrida 1.651 km
Distância em cidade 1.289 km
Distância em rodovia 362 km
Consumo médio geral 9,1 km/l (gas.) / 8,3 km/l (álc.)
Consumo médio em cidade 9,1 km/l (gas.) / 6,9 km/l (álc.)
Consumo médio em rodovia 11,0 km/l (álc.)
Melhor média 11,5 km/l (gas.) / 12,2 km/l (álc.)
Pior média 5,7 km/l (gas.) / 4,3 km/l (álc.)
Dados do computador de bordo

 

Preços

Sem opcionais R$ 104.990
Como avaliado R$ 108.490
Completo R$ 117.780
Preços sugeridos em 2/9/19 em São Paulo, SP

 

Equipamentos e opcionais

Renegade Longitude – Alarme, ar-condicionado automático de duas zonas, assistente de saída em rampa, câmera traseira de manobras, controlador e limitador de velocidade, controle eletrônico de estabilidade e tração, faróis de leds, faróis e luz traseira de neblina, fixação Isofix para cadeiras infantis, luzes diurnas, monitor de pressão dos pneus, rodas de alumínio de 18 polegadas, sensores de estacionamento atrás, sistema de áudio com tela de 8,4 pol e integração a celular, volante com regulagem de altura e distância.

• Opcionais – Bolsas infláveis laterais dianteiras, de cortina e de joelhos do motorista; revestimento dos bancos em couro marrom; estribos e barras transversais de teto ou bagageiro de teto; frisos laterais, protetores de soleira e adesivo de capô; protetor de cárter e para-barros; suporte de bicicleta.

 

Ficha técnica

Motor
Posição transversal
Cilindros 4 em linha
Comando de válvulas no cabeçote
Válvulas por cilindro 4, variação de tempo
Diâmetro e curso 80,5 x 85,8 mm
Cilindrada 1.747 cm³
Taxa de compressão 12,5:1
Alimentação injeção multiponto sequencial
Potência máxima (gas./álc.) 135/139 cv a 5.750 rpm
Torque máximo (gas./álc.) 18,7/19,3 m.kgf a 3.750 rpm
Transmissão
Tipo de caixa e marchas automática / 6
Tração dianteira
Freios
Dianteiros a disco ventilado
Traseiros a disco
Antitravamento (ABS) sim
Direção
Sistema pinhão e cremalheira
Assistência elétrica
Suspensão
Dianteira independente, McPherson, mola helicoidal
Traseira independente, McPherson, mola helicoidal
Rodas
Dimensões 7 x 18 pol
Pneus 225/55 R 18
Dimensões
Comprimento 4,232 m
Largura 1,798 m
Altura 1,705 m
Entre-eixos 2,57 m
Capacidades e peso
Tanque de combustível 60 l
Compartimento de bagagem 320 l
Peso em ordem de marcha 1.480 kg
Desempenho e consumo (gas./álc.)
Velocidade máxima 180/182 km/h
Aceleração de 0 a 100 km/h 11,9/11,1 s
Consumo em cidade 10,0/6,9 km/l
Consumo em rodovia 12,0/8,6 km/l
Dados do fabricante; consumo conforme padrões do Inmetro