Gol e Voyage automáticos são bons, mas chegam tarde

Caixa de seis marchas e motor EA-211 são boas novidades; idade do projeto e detalhes despojados pesam contra

Texto: Fabrício Samahá – Fotos: divulgação

 

O estágio avançado do ciclo de produção em que se encontra a atual geração de Gol e Voyage — foram lançados há quase 10 anos — não inibiu a Volkswagen de lançar para eles a opção de transmissão automática de seis marchas, que substitui a caixa automatizada I-Motion de cinco marchas em uso desde 2009. A novidade estreia na linha 2019 vinculada ao motor EA-211 de 1,6 litro e quatro válvulas por cilindro.

Os preços partem de R$ 54.580 no Gol e R$ 60 mil no Voyage, oferecidos em versão única com pacotes de opcionais (veja quadro de equipamentos abaixo). Representam aumento de apenas R$ 3.540 e R$ 3.170 (na ordem) sobre as versões de caixa manual, apesar do emprego de motor mais moderno e sofisticado — proposta atraente diante da praxe do mercado de cobrar quase R$ 5 mil para dar descanso ao pé esquerdo. O logotipo MSI Automatic na tampa traseira é a única identificação externa da novidade.

Há boas razões para esse lançamento. Uma, a crescente participação da caixa automática no mercado (40% dos automóveis e comerciais leves vendidos no ano passado), que traz essa opção a modelos cada vez mais acessíveis. Outra, a ampliação do segmento de compras por pessoas com deficiência (PCD), que em geral demanda esse tipo de transmissão. De resto, caixas automatizadas estão perdendo terreno à medida que mais concorrentes adotam as automáticas de seis marchas.

 

Todo Gol 2019 recebe a frente mais alta do antigo Track e da Saveiro; logotipo MSI Automatic na traseira é única marca externa da nova opção

 

A transmissão AQ-160, fornecida pela japonesa Aisin, é da mesma família das que equipam Polo, Virtus, Golf e Jetta. A exemplo do Polo, ela conta com controle de neutro para reduzir o consumo no trânsito urbano: ao manter o carro parado e os freios acionados, a caixa passa internamente a ponto-morto (a posição da alavanca não muda) e volta à primeira marcha tão logo se alivie o pedal da esquerda. Com isso, a transmissão deixa de fazer força para tentar mover o carro. O recurso não atua ao se usar apenas o freio de estacionamento.

 

 

O motor EA-211 é inédito no Voyage, mas não na linha: desde 2014 equipa a Saveiro Cross e foi usado pelo extinto Gol Rallye. Trata-se da mesma unidade disponível no Polo e no Virtus, com técnicas mais atuais que as do EA-111 de duas válvulas por cilindro, como bloco de alumínio (responsável por alívio de peso da ordem de 20 kg), variação do tempo de abertura das válvulas de admissão e coletor de escapamento integrado ao cabeçote. Comparado ao EA-111, ele representa aumento razoável de potência (de 101 cv com gasolina e 104 com álcool para 110/120 cv) e de torque (de 15,4/15,6 m.kgf para 15,8/16,8 m.kgf, na mesma ordem de combustíveis). Ambos os motores usam preaquecimento de álcool, que dispensa uso de gasolina na partida a frio.

Como o motor mais leve compensa parte da massa adicional da transmissão, os carros estão só 14 kg mais pesados que as versões manuais. E o desempenho, como ficou? Como se sabe, a caixa automática representa perda de energia se comparada à manual, o que deixou os dois carros um pouco mais lentos que os originais, apesar da potência adicional. Com álcool, o Gol automático acelera de 0 a 100 km/h em 10,1 segundos e alcança a velocidade máxima de 185 km/h, ante 9,8 s e 188 km/h da versão manual. Boa notícia é que o consumo foi até reduzido: pelos padrões do Inmetro, a nova opção do Gol faz 7,7 km/l em cidade e 9,6 km/l em rodovia contra 7,6 e 9,2 km/l (na ordem) do manual, sempre com álcool.

 

Voyage combinou menos com a nova frente; preço de R$ 60 mil inclui conteúdo simples; rodas de alumínio de 15 pol, opcionais, são as mesmas nos dois

 

No restante os carros são os mesmos apresentados em maio, quando receberam a frente mais alta e de estilo mais robusto lançada na Saveiro (também usada no Gol Track, que saiu de produção). Seu formato combina com o Gol, mas nem tanto com o Voyage: visto de lado, fica clara a sensação de enxerto sobre o estilo mais fluido do sedã.

 

Com conversor de torque, a transmissão “acorda” rápido o motor, e assim o sedã começa a rodar com agilidade superior ao da antiga versão I-Motion

 

Ao volante do Voyage automático

O Best Cars esteve na fábrica de Taubaté, SP, que produz ambos os modelos e o Up, para o lançamento à imprensa das versões automáticas. Com um Voyage, fizemos trajeto urbano e rodoviário de cerca de 40 quilômetros. A sensação inicial é boa: auxiliada pelo conversor de torque, a transmissão “acorda” rápido o motor, e assim o sedã começa a rodar com agilidade superior ao da antiga versão I-Motion. As mudanças são tão suaves quanto se espera e a calibração eletrônica mostra-se acertada, mesmo em subidas e retomadas. A 120 km/h em sexta o motor gira pouco, 2.650 rpm.

Em termos de operação, nada há de novo para quem conhece um Volkswagen automático: a caixa oferece programas de condução normal e esportivo (este mantém rotações mais altas do motor) e seleção manual de marchas via alavanca (subindo para frente) ou comandos no volante. Em modo manual, as trocas automáticas para cima ocorrem no limite de giros (cerca de 6.400 rpm) e reduções são feitas apenas ao pressionar o acelerador até o fim, após um bem definido batente. Os comandos no volante estão sempre ativos, mas com a alavanca na posição D a atuação volta a automática alguns segundos após o uso — em S, a caixa entra em manual e não volta.

 

Painel renovado tem bom aspecto, em contraste às portas antigas; caixa automática tem mudanças suaves, boa calibração e comandos de trocas no volante

 

Um inconveniente comum ao Polo, embora talvez um pouco atenuado, é a força de tração exagerada: o carro quer arrancar quando a caixa está engatada com ele parado, como ao usar o freio de estacionamento ou ao aliviar um pouco o pedal de freio. Como se sabe, a causa está na escolha de um conversor de torque “preso”, de pouca atuação, a fim de favorecer a economia de combustível. Em termos de desempenho o carro atende bem às necessidades, mas não empolga. Ao menos o motor é mais suave e silencioso que o EA-111, sendo preciso superar 4.500 rpm para que seu ruído incomode ou as vibrações sejam mais sentidas.

 

 

O conjunto do Voyage confirma sensações — boas e más — bem conhecidas do modelo. Seu rodar é confortável para um carro da categoria, embora com transmissão de irregularidades acima do ideal. O painel todo anguloso tem ar atual (e um prático repetidor digital do velocímetro), em contraste aos painéis de porta com elementos arredondados, os mesmos desde 2008. O motorista desfruta regulagens do volante em altura e distância, mas tem escasso conforto no banco curto nas coxas e com ajuste de altura pouco eficaz: altera mais a inclinação e o faz despencar ao se acionar a alavanca. Centrais de áudio com integração a celular, faróis de duplo refletor, repetidores laterais das luzes de direção e retrovisor direito que foca o meio-fio ao se engatar marcha à ré são bons opcionais.

Para quem procura o conforto da caixa automática em um carro de bom desempenho sem gastar muito, as novas versões de Gol e Voyage podem ser boas opções, pois as alternativas menos custosas do mercado usam motores mais modestos, como o de 1,3 litro do Toyota Etios e o 1,4 do Chevrolet Onix — interessante é o novo Ford Ka de 1,5 litro, mais potente, pouco mais caro no caso do hatch e com o mesmo preço para o sedã. O que mais pesa contra os dois Volkswagens é a idade do projeto e o despojamento nos detalhes. Afinal, ninguém gosta de ter no painel de porta uma tampa, onde um dia esteve um pino de trava, ou o recorte que anos atrás se destinava a encaixar uma manivela de vidros.

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Preços e equipamentos

Gol MSI 1,6 automático (R$ 54.580) • Voyage MSI 1,6 automático (R$ 60 mil)

Ar-condicionado, banco do motorista com ajuste de altura,  controle elétrico de vidros dianteiros e travas, direção assistida hidráulica, rodas de aço de 15 pol, suporte para celular no painel, três apoios de cabeça traseiros.

• Opcionais – pacote Urban Completo (alarme e tampa traseira com controle remoto, controle elétrico de vidros traseiros, faróis de neblina, faróis duplos, para-sóis com espelhos iluminados, retrovisores externos com ajuste elétrico e luzes de direção, rodas de alumínio, sensor de estacionamento traseiro, volante com ajuste de altura e distância, R$ 3 mil), pacote Interatividade Composition Touch (computador de bordo, sistema de áudio com MP3, tela de 6,5 pol e integração a celular por Android Auto, Apple Car Play e Mirrorlink, volante com comandos, R$ 2 mil), pacote Interatividade Discover Media (como o anterior, mais navegador com atualização periódica de mapas incluída sem limite de tempo, R$ 2.100).

 

Ficha técnica

Motor
Posição transversal
Cilindros 4 em linha
Comando de válvulas duplo no cabeçote
Válvulas por cilindro 4, variação de tempo
Diâmetro e curso 76,5 x 86,9 mm
Cilindrada 1.598 cm³
Taxa de compressão 11,5:1
Alimentação injeção multiponto sequencial
Potência máxima (gas./álc.) 110/120 cv a 5.750 rpm
Torque máximo (gas./álc.) 15,8/16,8 m.kgf a 4.000 rpm
Transmissão
Tipo de caixa e marchas automática, 6
Tração dianteira
Freios
Dianteiros a disco ventilado
Traseiros a tambor
Antitravamento (ABS) sim
Direção
Sistema pinhão e cremalheira
Assistência hidráulica
Suspensão
Dianteira independente, McPherson, mola helicoidal
Traseira eixo de torção, mola helicoidal
Rodas
Dimensões 6 x 15 pol
Pneus 195/55 R 15
Dimensões Gol Voyage
Comprimento 3,897 m 4,213 m
Largura 1,656 m 1,656 m
Altura 1,464 m 1,41 m
Entre-eixos 2,466 m 2,466 m
Capacidades e peso  Gol Voyage
Tanque de combustível 55 l 55 l
Compartimento de bagagem 285 l 480 l
Peso em ordem de marcha 1.040 kg 1.058 kg
Desempenho e consumo (gas./álc.) Gol Voyage
Velocidade máxima 179/185 km/h 184/190 km/h
Aceleração de 0 a 100 km/h 10,7/10,1 s 10,8/10,2 s
Consumo em cidade 11,1/7,7 km/l 11,1/8,0 km/l
Consumo em rodovia 13,6/9,6 km/l 14,3/10,1 km/l
Dados do fabricante; consumo conforme padrões do Inmetro