Ecosport vs. 2008: aventura e descanso ao pé esquerdo

Mais potente, o Ford vence nas acelerações; o Peugeot tem mais torque e pesa menos

 

Mecânica, comportamento e segurança

São motores de mesma cilindrada e quatro válvulas por cilindro. As soluções técnicas mais atuais (leia mais) garantem potência superior ao Ecosport (126 cv com gasolina e 131 cv com álcool, ante 115/122 cv do adversário), mas o 2008 vence por pequena margem em torque, com 15,5/16,4 m.kgf (contra 15,4/16,1 m.kgf) em regimes mais baixos. São valores, de qualquer forma, entre os mais modestos do segmento e que afastam qualquer expectativa de brilho em desempenho.

Não que sejam motores ruins: apresentam operação suave, nível de ruído moderado e torque bem distribuído pela faixa de operação. Contudo, estão aplicados a modelos de mais de 1.200 kg de peso, com pneus largos e grandes e ampla área frontal, o que impede que obtenham os mesmos bons resultados dos hatches Fiesta e 208 dos quais são derivados — situação agravada no Peugeot pelas apenas quatro marchas da transmissão automática. Além disso, há nele faixas de vibração mal resolvidas em médias rotações ao acelerar mais fundo.

As medições do Best Cars apontaram desempenho discreto com vantagem do Ecosport nas acelerações, como ao fazer de 0 a 100 km/h em 12 segundos, e o adversário, em 13,1 s. Já nas retomadas o 2008 saiu-se melhor em duas das provas, aquelas iniciadas em velocidade mais baixa. O Ford voltou a ser superior em consumo, tanto nos trajetos urbanos quanto no rodoviário (veja números e análise detalhada).

 

Caixas diferentes em conceito e número de marchas; só 2008 tem comandos no volante

 

As transmissões diferenciam-se pelo princípio de atuação — automatizada de dupla embreagem no Ecosport, automática epicíclica no 2008 — e pelas duas marchas adicionais do primeiro modelo, distinções que favorecem sua eficiência em transmitir energia. A Ford optou por uma calibração com foco no funcionamento suave, em que a caixa parece “patinar” mais nas mudanças que outras do gênero (como a DSG da Volkswagen), como que simulando a operação típica de uma automática.

 

Os motores estão em modelos de mais de 1.200 kg, o que impede bom desempenho, agravado no Peugeot pelas quatro marchas

 

Com isso, é provável que a maioria dos motoristas não consiga distinguir os diversos conceitos das transmissões dos dois carros, supondo que a única diferença esteja nas marchas a mais ou a menos. Marchas, aliás, que fazem falta ao Peugeot: os grandes intervalos entre as relações prejudicam o desempenho em algumas situações e, em algumas reduções, levam o motor a rotações excessivas sem necessidade com prejuízos ao conforto e ao consumo.

Em termos de calibração a marca francesa foi feliz, mas com ressalvas. Em modo esportivo (S), por exemplo, ao cortar o acelerador a caixa faz a boa medida de reter marchas para obter freio-motor e ajudar o desempenho nas saídas de curva, assim como no Ecosport. Contudo, o programa Eco (favorável à economia e lançado pelo 2008 na marca) exagera em sua ênfase nas baixas rotações: além de “matar” o desempenho, por várias vezes fez o motor vibrar a cerca de 1.000 rpm e, mesmo abrindo mais o acelerador, a caixa demorou a reduzir marcha. Outro incômodo é o solavanco quando a primeira entra, pouco antes de se parar — parece que alguém encostou no para-choque traseiro.

 

A suspensão confortável favorece o 2008 em pisos ruins, mas a estabilidade é melhor no Ecosport, cujo controle eletrônico ajuda também ao trafegar na lama

 

Item preferível do Peugeot é a seleção manual de marchas por um canal lateral da alavanca ou pelos comandos atrás do volante, que não acompanham seu movimento. Em modo manual as trocas para cima continuam automáticas, mas reduções só se fazem caso o acelerador seja pressionado até o fim. No Ford o único acionamento manual é por botão no pomo da alavanca, bem menos prático, e em modo manual sua caixa (que também troca para cima no limite) continua a fazer reduções ao abrir rápido o acelerador, mesmo sem chegar ao fim de curso, arranjo que não aprovamos.

 

 

Embora os conceitos de suspensão sejam os mesmos, diversas calibrações levam a resultados diferentes. O Ecosport segue os bons padrões da marca em termos de estabilidade, com maior controle da inclinação e dos movimentos da carroceria. O rodar confortável na maioria dos pisos não impede, porém, que certas irregularidades sejam mal absorvidas até mesmo em velocidades de rodovia. No 2008, como constatado na versão THP, a fábrica exagerou na maciez dos amortecedores: embora tenha obtido bom conforto em pisos ruins, deixou o carro com excesso de movimentos, pelo que transmite menos confiança nas curvas.

O curioso é que no evento de lançamento tivemos melhor impressão com a versão aspirada do Peugeot que com a turbo, mas as unidades depois recebidas para avaliação completa pareceram similares em sua maciez excessiva — estaria a fábrica com grande variação de produção? A presença de controle eletrônico de estabilidade e tração é outro ponto a favor do Freestyle, tanto pela segurança em manobras evasivas quanto pela capacidade em terrenos com lama, nos quais o rival tende a perder tração com mais facilidade (foi possível avaliar apenas o Eco nessas condições, nas quais mostrou bom resultado).

 

Faróis duplos do Peugeot são superiores; Ford usa retrovisores biconvexos; ambos vêm com bolsas infláveis laterais e de cortina

 

Ambos os carros têm freios bem dimensionados em capacidade e assistência, com vantagem para o 2008 pelo uso de discos também na traseira. O assistente de saída em rampa do Ecosport é um bom auxílio, mas o adversário o dispensa, pois a transmissão automática o faz “rastejar” o suficiente para facilitar a arrancada em subidas (embora a caixa automatizada produza o mesmo efeito, haveria desgaste de embreagem caso fosse mantida nessa condição com frequência, razão para o fabricante ter aplicado o assistente a todos os modelos que a usam). As direções com assistência elétrica estão bem calibradas e são agradavelmente leves em manobras.

A Peugeot caprichou mais na iluminação: seus faróis têm duplo refletor, sendo o facho baixo do eficiente tipo elipsoidal, enquanto a Ford economizou com refletor único, solução inaceitável nessa faixa de preço. Os dois trazem faróis de neblina (luz traseira para o mesmo uso, só o 2008: o Ecosport perdeu a sua para 2016) e repetidores laterais das luzes de direção, mas não ajuste elétrico da altura do facho. A visibilidade geral é superior no 2008, com amplas janelas e colunas mais estreitas (as dianteiras e traseiras do adversário, enormes, o prejudicam muito), mas os retrovisores biconvexos do Ecosport são ainda melhores que os convexos do concorrente.

Segurança passiva é um bom atributo de ambos: vêm de série nessas versões com bolsas infláveis frontais, laterais dianteiras e de cortina, assim como cintos de três pontos e encostos de cabeça para todos os ocupantes. A favor do Ecosport estão as fixações para cadeira infantil em padrão Isofix, que o adversário deveria adotar. Apenas o Ford foi testado em colisão pelo instituto Latin NCap, que lhe concedeu cinco estrelas na proteção de adultos e três na de crianças (por insuficiência de dados sobre os carros nacionais este aspecto não é considerado em nossa avaliação).

Próxima parte