Citroën C3 e Aircross: como ficaram com seis marchas

Nova caixa automática traz economia e refinamento aos dois modelos; dirigimos também a renovada C4 Picasso

Texto: Fabrício Samahá e Geraldo Tite Simões – Fotos: divulgação

 

Não importa o que alguns falem por aí, quatro marchas são muito pouco para uma transmissão automática hoje. A demanda por eficiência energética tornou inaceitável que os grandes intervalos entre as relações sejam compensados pelo trabalho do conversor de torque (entenda melhor), como tanto se fez desde a criação das caixas automáticas, mais de 70 anos atrás.

A PSA Peugeot Citroën relutou, mas enfim começa a equipar seus modelos compactos com a caixa de seis marchas AW da japonesa Aisin, que substitui a AT8 de quatro marchas desenvolvida em parceria com a Renault. Por enquanto a novidade está restrita aos Citroëns C3 e Aircross, mas logo chega aos Peugeots 208 e 2008.

A partir de R$ 58.540, no caso do hatch, ou R$ 68 mil para a minivan “aventureira”, pode-se ter a nova transmissão associada ao motor de 1,6 litro e 16 válvulas (potência de 115 cv com gasolina e 118 com álcool) e bom nível de equipamentos de série (veja no quadro abaixo as versões, preços e conteúdos). O C3 ganhou a opção dessa caixa para o mais acessível Attraction; antes começava pelo Tendance.

 

Embora sem novidades visuais desde 2012, o C3 está mais agradável de dirigir: menos trabalho do conversor em cidade, menor rotação em rodovia

 

Com a manual de cinco marchas, o C3 mantém o motor Puretech de 1,2 litro e três cilindros (84/90 cv) nas versões Origine, Attraction e Tendance, enquanto a Aircross usa o 1,6 com 115/122 cv nos acabamentos Start e Live. Deixa de existir na minivan o de 1,45 litro, inadequado a seu peso, que havia chegado na linha 2016 com a unificação entre Aircross e C3 Picasso. A garantia é de três anos para ambos.

A nova transmissão, a mesma de C4 Lounge e C4 Picasso, dispõe de três programas de condução: normal, Sport (que favorece a agilidade e aumenta o freio-motor nas desacelerações, ao manter o motor em rotações mais altas) e Eco (favorável à economia de combustível, que opera com regimes mais baixos). Como na Aircross anterior, mudanças manuais de marcha podem ser feitas pela alavanca ou em comandos junto ao volante; no C3, agora, só pela alavanca.

 

A transmissão efetua mudanças de modo suave e depende menos do conversor de torque; tem primeira mais curta, última marcha mais longa e intervalos menores entre as relações

 

Sem informar por enquanto os dados de consumo pelos padrões do Inmetro, a Citroën anuncia ganho de até 7% pela mudança de caixa. Esse não foi o único benefício: as acelerações são beneficiadas pelo menor intervalo entre as relações, a rotação em viagem é mais baixa e, caso seja necessária redução para um aclive ou uma ultrapassagem, tem-se operação mais suave reduzindo uma ou duas marchas mais próximas entre si, em vez de só uma com grande variação de rotação.

Alguns números ilustram as vantagens citadas. As velocidades por 1.000 rpm da caixa automática anterior do C3, calculadas, eram de 9, 16, 25 e 35 km/h de primeira a quarta. Agora são de 7, 11, 17, 23, 32 e 40 km/h de primeira a sexta. Portanto, ganhou-se uma primeira mais curta, uma última marcha mais longa e intervalos bem menores entre as relações de todas elas. A rotação a 120 km/h em sexta (2.950 rpm) é quase 500 rpm menor que a da antiga quarta, fator de economia em uso rodoviário.

 

A Aircross ganhou os mesmos benefícios e volta a ter motor 1,6-litro de série; potência e torque com álcool diminuíram com recalibração

 

O motor VTI 120 teve a central eletrônica recalibrada nas versões automáticas. Segundo a fábrica, um objetivo foi obter melhor distribuição de torque; outro, padronizar seus parâmetros aos do usado no exterior no C-Elysée e no Peugeot 301, embora lá não seja flexível. O resultado é que, com gasolina, a potência máxima de 115 cv agora chega a 5.750 rpm (antes 6.000) e o torque cresceu de 15,5 para 16,1 m.kgf às mesmas 4.000 rpm. Com álcool, porém, houve perda de potência (de 122 cv a 5.800 rpm para 118 cv a 5.750 rpm) e de torque (de 16,4 m.kgf a 4.000 rpm para 16,1 m.kgf a 4.750 rpm).

 

 

No restante, C3 e Aircross 2018 são os mesmos de antes. Apenas passa a vir de série em toda a linha o sistema de áudio com tela sensível ao toque de 7 pol e execução de aplicativos de celular (Mirror Screen), antes restrito a versões superiores. A Aircross havia sido atualizada em estilo e interior para 2016, mas o C3 permanece igual em aparência desde 2012: uma renovação seria bem-vinda, por mais que suas linhas continuem agradáveis. Talvez algo específico para nosso modelo esteja em preparo, pois a Europa já tem nova geração.

 

Ao volante de C3 e Aircross

O lançamento à imprensa ofereceu um breve trajeto de cerca de 20 quilômetros com cada modelo na Rodovia Castello Branco, nas cercanias de Sorocaba, SP. O C3 mostra-se um carro leve para dirigir, com assistência elétrica de direção bem dosada. Com acabamento simples e isolamento acústico apenas regular, pode-se ouvir bem o ruído do motor, assim como sentir um pouco da vibração. O para-brisa que avança pelo teto quase funciona como teto solar, mas o acionamento do anteparo que o diminui é algo pesado. Infeliz a localização do regulador do encosto, que espreme a mão entre o banco e a coluna.

 

Interior é o mesmo (nas fotos o da Aircross), mas tela de 7 pol para sistema de áudio agora vem em toda a linha; câmera traseira, só na minivan Shine

 

A transmissão, igual em operação e relação nos dois automóveis, efetua mudanças de modo suave e depende menos do conversor de torque no uso urbano. A diferença de calibração eletrônica entre os três programas fica bem evidente: na opção esportiva (S) ela troca em giros mais altos e, quando se desacelera, mantém a marcha também em rotação superior. Acelerando a pleno, a troca de marchas ocorre por volta de 6.000 rpm.

A Aircross continua oferecida em dois estilos: com suspensão mais baixa e pneus de uso misto, na versão Live, e com suspensão elevada e pneus de uso misto, na Feel e na Shine (no caso da caixa automática a Feel está restrita à venda a pessoas com deficiência, a qual tem limite de preço de R$ 70 mil antes da isenção de tributos). Com certo jeito de utilitário esporte, a minivan tem porte robusto e posição de dirigir bem alta, mas o aplique de plástico no painel é discutível. Grande vantagem sobre o C3 é o espaço bem maior aos passageiros de trás.

Ao sanar a limitação da caixa automática, C3 e Aircross ficaram mais agradáveis de dirigir e competitivos. O hatch passa nesse quesito ao “clube de elite” do segmento, no qual ainda existem caixas automáticas de quatro marchas (Toyota Etios e, por ora, Peugeot 208) e automatizadas monoembreagem (como Renault Sandero e Volkswagen Fox). A minivan, por sua vez, apesar do envelhecimento do projeto de 2010, ganha atributos para se manter como alternativa aos utilitários esporte compactos, em geral mais caros e não mais práticos ou espaçosos.

Próxima parte

 

Versões, preços e equipamentos

C3 Attraction (R$ 58.540) – Ar-condicionado, banco traseiro bipartido, computador de bordo, controle elétrico de vidros, travas e retrovisores, direção assistida elétrica, faróis de neblina, luzes diurnas de leds, porta-luvas refrigerado, rodas de 15 pol, sistema de áudio com tela de 7 pol e execução de aplicativos de celular, volante ajustável em altura e distância.

C3 Tendance (R$ 61.940) – Como o Attraction, mais alarme antifurto, para-brisa panorâmico, rodas de alumínio de 15 pol, sensores de estacionamento traseiros.

C3 Exclusive (R$ 65.490) – Como o Tendance, mais ar-condicionado automático, bancos dianteiros com apoio de braço, controlador e limitador de velocidade, faróis e limpador de para-brisa automáticos, retrovisor interno fotocrômico, rodas de alumínio de 16 pol, volante revestido em couro.

Citroen Aircross 2016 07Aircross Live (R$ 68 mil)- Ar-condicionado, banco do motorista com regulagem de altura, banco traseiro bipartido, cintos de três pontos para cinco ocupantes, computador de bordo, controle elétrico de vidros, travas e retrovisores, direção assistida elétrica, faróis de neblina, luzes diurnas de leds, porta-luvas refrigerado, rodas de alumínio de 16 pol, sistema de áudio com tela de 7 pol e execução de aplicativos de celular, volante ajustável em altura e distância.

Aircross Feel (R$ 70 mil) – Versão restrita a pessoas com deficiência. Como a Live, mais estepe externo com capa, suspensão elevada.

Aircross Shine (R$ 76.400) – Como a Feel, mais ar-condicionado automático, bancos de tecido/couro, câmera traseira de manobras, controlador de velocidade, pneus 205/60, faróis e limpador de para-brisa automáticos, sensores de estacionamento traseiros, volante revestido em couro.

A garantia é de três anos e o fabricante opera com preços fixos de revisões.

Próxima parte