Peugeot 3008: desempenho e teste de mês interrompido

Recolhido para substituição de pneu, carro roda pouco na terceira semana; confira análise de aceleração e estabilidade

Texto e fotos: Felipe Hoffmann

 

Nossa terceira semana com o Peugeot 3008 no teste Um Mês ao Volante não saiu conforme planejado. Tínhamos marcado uma viagem na sexta-feira (15) ao evento do BMW 330i, oportunidade para obter dados com o instrumento Race Capture Pro e impressões em rodovia, mas um imprevisto aconteceu na véspera. A colaboradora Julia Pacheco estava avaliando o carro, para repassar as impressões femininas sobre ele, quando o pneu dianteiro esquerdo furou numa rua escura e sem qualquer local seguro para parar com um carro tão chamativo. Naquela noite chovia muito e várias vias estavam alagadas, o que fez o aplicativo Waze sugerir a Julia trajetos não tão amigáveis.

Por isso, a motorista continuou dirigindo o carro por cerca de 1 km até chegar a um posto de combustível, onde o frentista trocou o pneu — ajuda mais que bem-vinda, pois a roda de 19 polegadas com pneu 235/50 é um tanto quanto pesada. Julia chegou em casa sem problema com o estepe temporário, mas o pneu que furou já estava condenado por rodar sem pressão. No dia seguinte o 3008 foi recolhido pela Peugeot, para instalação de novo pneu, e ainda não estava pronto quando este texto é publicado. Como a empresa precisa encerrar o uso desse carro na frota de imprensa nos próximos dias, deverá nos ceder outra unidade para a continuidade da avaliação e a gravação do vídeo de análise técnica.

 

O 3008 com estepe em uso: apesar do menor diâmetro, o sistema ABS não emitiu alerta

 

A semana encurtada teve apenas 313 km de uso urbano com média geral de 11,2 km/l. A melhor marca foi de 15,6 km/l em 12 km com média de velocidade de 51 km/h — boa parte pela marginal Pinheiros durante a madrugada, sem trânsito. A pior marca foi de 9,5 km/l em 72 km com média de 25 km/h, o que incluiu a noite do incidente. Também rodamos 87 km não contabilizados para o consumo durante os testes dinâmicos.

E o que Julia achou do carro? Ela gostou da posição de dirigir e das numerosas conveniências, além do estilo e do acabamento interno. “Adorei a massagem dos bancos, as câmeras de manobras, a direção leve com volante pequeno e as respostas do motor. Por outro lado, o balanço lateral e os ‘pulos’ (perda de contato com o solo) em ruas remendadas não transmitiram segurança no controle do carro”.

 

 

Realmente o acerto de suspensão para impactos rápidos, como remendos e buracos, causa estranheza. As rodas “quicam”, fazendo os pneus perderem contato com o solo em curvas com irregularidades, e isso desloca o carro para fora da curva, além de a traseira “dançar” de um lado para o outro em pisos desnivelados. Mesmo em linha reta, se a ondulação pega apenas um lado do carro, a frente e principalmente a traseira se movimentam lateralmente — a ponto de motociclistas no corredor entre os carros terem reclamado, achando que fossem ganhar uma fechada por falta de atenção nossa.

Tal fenômeno é mais comum quando se tem suspensão traseira independente com o braço inferior muito inclinado, o que faz a roda se movimentar para fora ao ser comprimida, movimentando o braço para posição mais horizontal. Contudo, no 3008 a suspensão traseira é por eixo de torção, que deveria fazer a roda apenas se movimentar verticalmente. O ângulo dos pontos de fixação dos braços ao carro, o que determina a altura do centro de rolagem da suspensão traseira, deve estar criando alguma força resultante lateral.

 

Acabamento e conveniências do interior agradaram à colaboradora; o quicar dos pneus e a instabilidade em pisos desnivelados mereceram críticas

 

Tal comportamento em vias irregulares é uma pena, pois em asfalto liso — raro em São Paulo — seu comportamento dinâmico é muito bom, a ponto de nem parecer um utilitário esporte. A aceleração lateral atingida em nosso círculo-padrão não foi das melhores, 0,89 g, mas está longe de ser ruim para o porte e a altura do carro. Apesar de não termos medido um concorrente do 3008, temos como referência os SUVs menores Honda HR-V EXL (0,96 g), Hyundai Creta Sport (0,88 g) e Nissan Kicks SV (0,84 g).

 

O 3008 se torna muito divertido e arisco em tocada mais esportiva: consegue-se fazer escorregar tanto a frente como a traseira sem o controle eletrônico atuar

 

Mais importantes são a sensação ao dirigir e como ele se comporta quando provocado, pontos que chamaram a atenção. O carro se torna muito divertido, arisco e com resposta conforme o motorista deseja, em qualquer situação de tocada mais esportiva. Apesar do comportamento bem neutro, consegue-se fazer escorregar tanto a frente como a traseira, sem que o controle eletrônico de estabilidade intervenha. Até acima de 120 km/h se pode jogar a traseira para apontar o carro para dentro da curva, o que nos deixou apreensivos pensando em um motorista menos habilidoso. Em velocidades mais baixas o controle eletrônico entra apenas no momento “deixe-me atuar antes que você se mate”. No teste de aceleração lateral, com velocidade quase constante por volta de 60 km/h, o controle não atuou.

Uma vez com o estepe de uso temporário, o carro ficou “abaixado” em seu lado, já que o diâmetro total é bem menor que o dos pneus de uso constante. Tal diferença de diâmetro não fez o sistema ABS ficar perdido, por uma roda estar girando em rotação diferente das demais — deve haver alguma correção em sua lógica para tal ocorrência. Provavelmente, se o volante está em linha reta e aquela roda gira com maior rotação em certo percentual, o sistema interpreta o uso do estepe.

 

 

Desempenho impressiona bem

As análises com o Race Capture Pro indicaram algumas curiosidades, como o momento em que a transmissão automática passa ao ponto-morto ao parar o carro, como num semáforo — isso diminui o consumo e as vibrações dentro da cabine, por aliviar o motor de uma carga desnecessária. Uma vez que o motorista tira o pé do freio e acelera, o 3008 sai suave e rápido, tornando quase imperceptível tal manobra da caixa. Apenas em subidas menos íngremes se nota, uma vez que o carro desce alguns centímetros.

 

 

Também detectamos o momento de “engate” da primeira marcha no teste de aceleração sem estol (gráfico acima), onde se nota que levou alguns décimos de segundo para a velocidade sair do zero após aliviar o pé do freio e pressionar o acelerador. Nessa manobra o 3008 acelerou de 0 a 100 km/h em 10,1 segundos e até 400 metros em 17,2 s. Já usando o estol da transmissão (gráfico abaixo), padrão do Best Cars, os tempos melhoraram para 9,8 e 16,9 s, na ordem (o carro do comparativo de quatro SUVs fez em 9,4 e 17,2 s, medido em outro local).

Os tempos poderiam ser até melhores, caso o motor tivesse toda a força liberada assim que se pisa no freio e no acelerador ao mesmo tempo. No 3008 o torque liberado antes da manobra é de 72% do total que poderia produzir, mantendo a pressão no coletor de admissão de 106 kPa (pouco acima do que conseguiria sem turbo, já que a pressão ao nível do mar é de 101 kPa). Tal estratégia visa a proteger a transmissão, bem como evitar patinar os pneus, que no caso estão no limite de aderência.

 

 

Como já comentamos, as respostas ao acelerador são progressivas e fáceis de dosar em modo normal, o que nos agrada. Já no programa Sport a atuação se torna bem mais rápida e o carro assume uma pegada esportiva, efetuando reduções de marchas em frenagens antes das curvas e mantendo o motor em rotação mais alta. Por outro lado, o pedal de freio é bem arisco, sendo necessário modular a frenagem pelo deslocamento do pé — tarefa mais difícil — e não pela força aplicada. De qualquer forma, os freios se comportam de forma equilibrada mesmo em altas velocidades e simulando situação de emergência.

A transmissão revelou calibração bem-feita e operação suave. O maior senão é os comandos de trocas de marchas não acompanharem o volante, o que dificulta seu uso em curvas. Podem-se trocar as marchas manualmente também em modo automático, por tais comandos, mas nada indica se o sistema retornou a automático ou não — a letra D continua no painel, seguida da marcha. Caso seja selecionado o modo manual, aí sim a letra M aparece.

Infelizmente não usamos tanques o suficiente para a comparação ideal entre o consumo de combustível indicado no computador de bordo e o calculado na bomba. Pelo que conseguimos levantar, o indicado foi em média 10,1% melhor que o real, um otimismo bem acima do registrado em outros carros. Isso tira um pouco do brilho das marcas indicadas, mas não o mérito de o carro ser relativamente econômico para seu porte e, sobretudo, o desempenho que oferece.

  • Texto atualizado em 21/3 com novas informações
Semana anterior

 

Terceira semana

Distância percorrida 313 km
Distância em cidade 313 km
Distância em rodovia
Consumo médio geral 11,2 km/l
Consumo médio em cidade 11,2 km/l
Consumo médio em rodovia
Melhor média 15,6 km/l
Pior média 9,5 km/l
Dados do computador de bordo com gasolina

 

Desde o início

Distância percorrida 651 km
Distância em cidade 651 km
Distância em rodovia
Consumo médio geral 11,2 km/l
Consumo médio em cidade 11,2 km/l
Consumo médio em rodovia
Melhor média 12,9 km/l
Pior média 6,5 km/l
Dados do computador de bordo com gasolina

 

Preços

Sem opcionais R$ 166.990
Como avaliado R$ 166.990
Completo R$ 169.780
Preços sugeridos em 6/3/19 em São Paulo, SP

 

Equipamentos

3008 Griffe Pack – Alarme perimétrico e volumétrico, ar-condicionado automático de duas zonas, assistente de faixa, assistente de faróis, assistente de saída em rampa, bancos dianteiros com ajustes elétricos e massageador (memória no do motorista), câmera traseira de manobras, carregador de celular por indução (sem fio), chave presencial para acesso e partida, controlador de velocidade e distância e limitador de velocidade, controle eletrônico de estabilidade e tração, faróis de neblina de leds com iluminação de curvas, faróis de leds com luzes diurnas, faróis e limpador de para-brisa automáticos, fixação Isofix para cadeiras infantis, leitor de sinalização de velocidade, monitor de atenção do motorista, monitor de pontos cegos nas faixas laterais, monitor frontal com frenagem automática, quadro de instrumentos digital de 12,3 pol, revestimento de bancos em couro, rodas de alumínio de 19 polegadas, seis bolsas infláveis (frontais, laterais dianteiras e de cortina), sensores de estacionamento à frente e atrás, sistema de áudio com tela de 8 pol e integração a celular, teto solar panorâmico com abertura elétrica, volante com regulagem de altura e distância.

 

Ficha técnica

Motor
Posição transversal
Cilindros 4 em linha
Comando de válvulas duplo no cabeçote
Válvulas por cilindro 4, variação de tempo
Diâmetro e curso 77 x 85,8 mm
Cilindrada 1.598 cm³
Taxa de compressão 10,5:1
Alimentação injeção direta, turbocompressor, resfriador de ar
Potência máxima 165 cv a 6.000 rpm
Torque máximo 24,5 m.kgf de 1.400 a 4.000 rpm
Transmissão
Tipo de caixa e marchas automática, 6
Tração dianteira
Freios
Dianteiros a disco ventilado
Traseiros a disco
Antitravamento (ABS) sim
Direção
Sistema pinhão e cremalheira
Assistência elétrica
Suspensão
Dianteira independente, McPherson, mola helicoidal
Traseira eixo de torção, mola helicoidal
Rodas
Dimensões 19 pol
Pneus 235/50 R 19
Dimensões
Comprimento 4,447 m
Largura 1,906 m
Altura 1,625 m
Entre-eixos 2,675 m
Capacidades e peso
Tanque de combustível 53 l
Compartimento de bagagem 520 l
Peso em ordem de marcha 1.567 kg
Desempenho e consumo
Velocidade máxima 206 km/h
Aceleração de 0 a 100 km/h 8,9 s
Consumo em cidade 9,2 km/l
Consumo em rodovia 11,5 km/l
Dados do fabricante; consumo de gasolina conforme padrões do Inmetro