JAC J5: mais centímetros, menos reais

 

A combinação de porte, conteúdo e preço é convidativa
no JAC J5, que merece aprimoramentos técnicos e no interior

Texto e fotos: Fabrício Samahá

 

Carros bem-equipados, ainda que sem tradição no mercado e com qualidade a ser comprovada, por preços atraentes: isso é o que a maioria parece esperar dos modelos chineses que têm aparecido no mercado brasileiro. No caso da JAC, ou Jianghuai Automobile Co., Ltd., o modelo de estreia — o pequeno J3, que comparamos em 2011 ao Fiat Uno — havia revelado atributos suficientes para competir em um segmento com muitas opções. Depois vieram a minivan J6 e o sedã médio J5, que agora é alvo de nossa avaliação.

Depois da grande elevação de alíquotas de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para carros importados, não foi fácil para a JAC chegar a um preço convidativo para o J5. Mas após algumas reduções ele hoje é oferecido a R$ 46.990, mais R$ 1.390 pelas rodas de 17 pol, R$ 1.290 pela pintura metálica e R$ 1.600 pelo revestimento dos bancos em couro, como avaliado, em total de R$ 51.270.

O preço de entrada é menor que o de opções semelhantes de marcas mais consagradas, como Ford Focus sedã GL 1,6 (R$ 51,7 mil), Honda City DX 1,5 (R$ 49,6 mil) e Kia Cerato 1,6 (R$ 52,8 mil). Só o Nissan Sentra 2,0 básico (R$ 47,9 mil) fica bem próximo. Desses, o City é inferior em termos de tamanho, sendo considerado um médio-pequeno e não um médio-grande como os demais.

E o que o sedã chinês tem a oferecer por esse preço?

Em primeiro lugar, equipamentos de série. A relação inclui bolsas infláveis frontais, freios a disco nas quatro rodas com sistema antitravamento (ABS) e distribuição eletrônica entre os eixos (EBD), ar-condicionado com ajuste automático, rodas de alumínio de 16 pol, faróis de neblina, sensores de estacionamento traseiros e controle elétrico dos vidros, travas e retrovisores.

 

 
As formas equilibradas, com ar italiano, são uma das qualidades à vista no recente sedã da JAC

 

Outro atributo é o estilo, importante para a grande maioria. Nota-se a influência do desenho italiano em suas linhas harmoniosas e equilibradas — a JAC mantém um estúdio naquele país —, que parecem aptas a passar vários anos sem envelhecer. No interior, o J5 acena com muito bom espaço para os ocupantes, ao nível dos dois maiores carros citados (Focus e Sentra), embora a acomodação no banco traseiro seja apenas razoável para cabeça e ombros de três pessoas, mesmo com o recurso a um assento baixo para ganhar altura útil.

Se acabamento é um ponto de dúvida habitual nos carros chineses, esse mostra certo capricho na escolha de superfícies pintadas em preto brilhante no painel, mas indica economia nos materiais plásticos rígidos e de textura simples. Já o revestimento dos bancos, que trazia couro no carro avaliado (opção aplicada pelas concessionárias), impressiona bem.

O motorista sente-se confortável nesse JAC, com ressalva ao volante ajustável apenas em altura, que fica um pouco distante para alguns. Os ajustes giratórios para altura e inclinação do assento são leves e há uma série de bons detalhes no interior, como distribuição do ar-condicionado para a traseira, para-brisa com faixa degradê, ajuste do intervalo do limpador, para-sóis com espelho iluminado, luzes de cortesia nas portas (quase extintas da produção nacional), porta-óculos de teto, alças de teto com retorno suave, aviso para atar cinto e conferir porta mal fechada, acendedor de cigarros e maçanetas cromadas (fáceis de achar à noite).

 

 
As rodas opcionais de 17 pol trazem desconforto; faróis baixos têm refletor elipsoidal

 

O carro mostra-se bem resolvido em termos de faróis (com refletor elipsoidal para o facho baixo) e segue o padrão europeu em itens como ajuste elétrico do facho dos faróis, luz de neblina traseira (além dos faróis correspondentes), repetidores laterais de luzes de direção e amplos retrovisores externos convexos.

Como já notado no J3, alguns detalhes merecem correção: alavanca de freio de estacionamento ruidosa demais; portas com primeiro estágio de abertura fraco (é comum que se abram muito sem querermos, podendo atingir objetos ou outro veículos, ou que se fechem em locais algo inclinados); conexão USB no sistema de áudio que requer cabo adaptador, volta a leitura ao início a cada partida do motor e não exibe informações dos arquivos MP3, este um caso único da JAC para nós; e luz interna posicionada muito atrás (amenizada por luzes de leitura dianteiras, que não são automáticas).

A iluminação dos instrumentos em azul, adotada apenas no Brasil, copia o mau exemplo dos antigos Volkswagens e não obtém contraste adequado com o fundo preto: se a leitura não convence à noite, é ainda mais difícil de dia. Contar com luz traseira de neblina é bom, mas não havia lugar mais intuitivo para seu comando que entre os botões de ventilação? O controle elétrico dos vidros tem função um-toque só para descida da janela do motorista e não conta com temporizador. Faltam ainda mostrador da temperatura ambiente externa, encosto de cabeça e cinto de três pontos para o passageiro central atrás.

 

 
Painel em preto brilhante e bancos de couro trazem certo requinte ao interior com
plásticos rígidos; posição do motorista seria favorecida com ajuste do volante em distância

 

Apesar de seu tamanho, o sedã JAC não se destaca em capacidade de bagagem: 460 litros, o que é razoável, mas inferior a quase toda a concorrência. Seria melhor que a tampa usasse articulações pantográficas e que fosse possível rebater o banco traseiro, o que praticamente todo modelo de três volumes permite hoje (há reforços estruturais na região). O estepe, em medida básica de 16 pol, deixa a versão de 17 pol com um pneu que não serve para reposição.

Nem baixa, nem alta

Ao contrário da minivan J6, que recebeu um motor mais potente para o Brasil, o J5 vem com a mesma unidade de 1,5 litro adotada na China, dotada de igual diâmetro de cilindros ao do 1,35-litro do J3 (muda apenas o curso de pistões) e de variação do tempo de abertura das válvulas, que são quatro por cilindro. Se a expressiva potência de 125 cv — são mais de 83 cv por litro — chega a superar a do motor de 2,0 litros do VW Jetta (120 cv com álcool), o torque máximo de 15,5 m.kgf a altas 4.000 rpm faz prever dificuldades para carregar o peso de 1.315 kg do automóvel.

Na prática, é melhor do que a teoria faz esperar. O sistema de variação faz bem seu trabalho e o JAC roda com relativa desenvoltura, sem a sensação de lentidão, bastando manter o motor acima de 2.000 rpm (abaixo dessa marca é um tanto “vazio”). Não muito acima, porém: o nível de ruído, moderado na faixa média, passa a incomodar em altas rotações assim como as vibrações, que são bem notadas no acelerador também ao redor de 3.000 giros. Em rodovia, o motor segue confortável a cerca de 3.500 rpm a 120 km/h em quinta marcha; o regime máximo é de 6.200. O câmbio tem comando leve e precisão razoável; engatar a marcha à ré é bastante simples, como se fosse a sexta marcha, sem travas redundantes.

 

 

 
Ar-condicionado automático com extensão para a traseira, porta-óculos e luzes de cortesia
são convenientes; áudio sem informações de MP3 e iluminação de instrumentos, não

 

A suspensão traseira independente do J5 representa requinte em um segmento no qual o eixo de torção ainda representa maioria absoluta, mas a JAC deixou a desejar na calibração: é mais dura do que convém a um carro familiar, ao contrário da dianteira. O maior problema, porém, vem dos pneus: os 215/45 R 17 (de marca incomum, Wanli) opcionais preveem a alta pressão de 37 lb/pol², o que os faz transmitir impactos em demasia. Após a pancada, falta carga aos amortecedores para conter a oscilação, o que indica a necessidade de todo um reestudo aqui. Como a medida básica de 16 pol tem pressão especificada bem menor, parece ter havido o objetivo de proteger rodas e pneus de danos em buracos. Nosso conselho: livre-se disso optando pelos pneus de série, de perfil mais alto.

Se a maciez não é o ponto alto, a estabilidade deve ser, certo? Em termos. O sedã mostra boa atitude em curvas e grande aderência com os largos pneus, mas a assistência de direção não diminui como deveria com o aumento da velocidade: o resultado é um volante leve demais, que causa a impressão de não se estar com o carro nas mãos. Cabe atenção urgente do importador para o fato, embora tenha sido anunciado que a versão para os chineses tem direção ainda mais macia (não dá para imaginar como seja).

Entre pontos positivos e negativos, o que faz do JAC J5 uma opção a considerar é mesmo a relação entre tamanho, preço e equipamentos de série. A única alternativa de dimensões semelhantes por valor próximo é o Sentra — que sai em vantagem em tradição da marca e desempenho com seu motor de 2,0 litros e 143 cv, mas oferece um pouco menos em conveniência. Nos demais casos, ou se paga mais por um carro de seu tamanho, ou se leva um modelo menor pelo mesmo dinheiro.

 

 
O motor de 1,5 litro tem desempenho adequado em média rotação, mas vibra muito em
alta; suspensão e direção requerem novo acerto para deixar o J5 mais estável e confortável 

 

Ficha técnica

Motor
Posição transversal
Cilindros 4 em linha
Comando de válvulas duplo no cabeçote
Válvulas por cilindro 4, variação de tempo
Diâmetro e curso 75 x 84,8 mm
Cilindrada 1.499 cm³
Taxa de compressão 10,5:1
Alimentação injeção multiponto sequencial
Potência máxima 125 cv a 5.500 rpm
Torque máximo 15,5 m.kgf a 4.000 rpm
Transmissão
Tipo de câmbio e marchas manual /  5
Tração dianteira
Freios
Dianteiros a disco ventilado
Traseiros a disco
Antitravamento (ABS) sim
Direção
Sistema pinhão e cremalheira
Assistência hidráulica
Suspensão
Dianteira independente, McPherson, mola helicoidal
Traseira independente, mola helicoidal
Rodas
Dimensões 17 pol
Pneus 215/45 R 17
Dimensões
Comprimento 4,59 m
Largura 1,765 m
Altura 1,465 m
Entre-eixos 2,71 m
Capacidades e peso
Tanque de combustível 57 l
Compartimento de bagagem 460 l
Peso em ordem de marcha 1.315 kg
Desempenho
Velocidade máxima 188 km/h
Aceleração de 0 a 100 km/h 11,8 s
Dados do fabricante; consumo não disponível