Estilo: Chevrolet Spin, do limão uma boa limonada

Com soluções voltadas ao baixo custo, é notável o resultado que a GM atingiu na remodelação para 2019

Texto: Danillo Almeida – Fotos: divulgação

 

A pedido de muitos leitores, o Best Cars reinaugura a seção Análise de Estilo, que avalia as soluções de desenho dos automóveis. Ela fica a cargo do colaborador Danillo Almeida, estudante de Engenharia Mecânica, que escreve sobre carros há 10 anos e tem livros publicados sobre o tema, disponíveis na Amazon.

 

Se fosse preciso associar um só adjetivo à Chevrolet Spin, ele poderia ser “racional”. A minivan surgiu em 2012, quando a General Motors estava se renovando na América Latina, e foi projetada com foco no custo-benefício. Usou a plataforma GSV, simples e compartilhada com vários modelos, e substituiu Meriva e Zafira sozinha. Agradou a quem saía da primeira, por ser maior e pouco mais cara, e desagradou ao público da segunda por ter menor refinamento geral. Contudo, conseguiu firmar-se no mercado por reunir espaço interno amplo, confiabilidade e preço moderado.

Seis anos mais tarde, está próxima a chegada da nova geração dos Chevrolets compactos, começando por Onix e Prisma. Seria possível esperar também por uma Spin totalmente nova, mas vetar a ideia foi uma decisão acertada para manter o foco da minivan no custo-benefício. Por isso, optou-se por uma reestilização para o modelo 2019.

 

A Spin passou por uma interessante reestilização, que aproveitou até os para-lamas, mas conseguiu a percepção de um estilo bastante renovado

 

As imagens não mentem: as mudanças se concentram nas regiões dianteira e traseira. A Chevrolet poderia ter mudado toda a carroceria mantendo a plataforma, como a Renault fez com Logan e Sandero atuais, mas preferiu não alterar nem mesmo o painel. No entanto, o trabalho feito na parte externa conseguiu mudar toda a aparência sem envolver muitas peças — e sem elevar os custos. E como isso foi possível? Não focando em quantos elementos mudar, mas sim em como cada um seria modificado, como a GM já fez com Onix, Prisma, Cobalt e Tracker.

 

A Chevrolet poderia ter mudado toda a carroceria, mas o trabalho conseguiu renovar a aparência sem envolver muitas peças — ou elevar os custos

 

Oficialmente, a inspiração do novo visual da Spin vem de utilitários esporte da Chevrolet, como o Equinox. Contudo, também é possível perceber a vontade de acabar com os apelidos maldosos que assombraram os carros que a filial brasileira lançou desde o Agile — o mais comum dado à minivan foi “capivara”. Tal associação veio principalmente da grade dianteira, de tamanho avantajado e posição protuberante. Esse é o item cuja mudança mais chama atenção. Vamos ver o que mais se pode concluir das novidades.

 

 

Estilo-1O capô foi estendido e ganhou contorno inferior convexo. Isso significa que o seu contorno passa a limitar a forma da grade e dos faróis, não mais o contrário. Além disso, tem três vincos de destaque, em vez de um central, e fica mais elevado próximo ao para-brisa. Isso deixa a dianteira mais próxima do formato de cunha quando vista de lado, o que combina mais com a proposta de minivan e colabora um pouco com a aerodinâmica.

Estilo-2A nova ordem de prioridade entre os elementos reduziu a altura dos faróis sem alterar muito seu comprimento, de modo que a forma toda ficou mais horizontal. Isso faz a carroceria parecer mais larga do que realmente é. Além de acabar com o apelido, a Chevrolet quis aproveitar a chance de dar à Spin aspecto mais jovial, distante da imagem tediosa e inexpressiva que sempre assolou as minivans.

 

 

Estilo-3Como a grade superior era grande, a placa podia ficar por cima da entrada de ar inferior sem prejudicar a admissão de ar para arrefecimento. Agora que a entrada superior ficou menor, a placa ficou na seção entre as duas entradas. Como essa seção ficou mais espessa para acomodá-la sozinha, passou a dividir a atenção do olhar com as entradas de ar. Por agora haver três elementos de destaque na região central da dianteira, não mais dois, cada um deles passa a chamar menos atenção individualmente.

Estilo-4A entrada de ar superior foi reduzida por cima graças ao capô e por baixo graças à placa, mas cresceu para os lados por causa dos limites com os faróis e das bordas internas mais finas. Ambos os recursos criam uma conexão visual forte entre a entrada e os faróis, como nos SUVs da Chevrolet (no Equinox as três peças se tocam). Além disso, o fabricante ganha a oportunidade de aumentar a área aberta da entrada de ar.

Estilo-5Solução interessante na lateral da porção dianteira: o vinco que nasce na porta agora é aproveitado para fazer o limite entre o capô e o farol. Como este era maior na Spin antiga, o vinco entrava no farol e se dissolvia em seu desenho interno, isolando a luz de direção acima das de iluminação. O capô foi estendido para baixo de modo a eliminar a porção dos faróis que ficava acima dessa linha. Assim, foi possível manter intocadas as chapas da carroceria que ficam entre o farol e a porta de cada lado.

 

 

Estilo-1Estilo-2Pode-se perceber que o combate aos apelidos continua nas laterais. A dianteira ficou recuada na altura da grade, mantendo a antiga protuberância apenas na região do para-choque. Somado ao capô mais inclinado, a dianteira passa a ter menos destaque na vista lateral. Essa mudança é curiosa porque aproxima mais o desenho da Spin ao das minivans, não ao dos SUVs. A intenção da Chevrolet não era torná-la mais jovial e atraente a um público mais emocional?

 

 

Estilo-3A moldura superior do vidro traseiro cresceu para virar um legítimo defletor, ainda que no padrão dos carros urbanos. Agora ela se estende um pouco mais além do vidro, para contribuir com o fluxo de ar, e avança sobre o vidro nas laterais, o que ajuda a alterar a proporção de áreas envidraçada e pintada. São sutilezas como essa que constroem o “ar de novidade” em um produto nem tão modificado assim.

Estilo-4A parte traseira apresenta uma solução parecida à do item 1, mas feita com o para-choque e as lanternas. Antes, a linha reta que divide o para-choque e a carroceria não tinha qualquer função estilística. Agora ela é aproveitada pelas luzes para criar o limite entre as partes vermelha e transparente. As luzes ganharam perfil mais baixo no redesenho, mas a diminuição se fez na parte inferior. A porção que invade as laterais na região coberta por chapa (sempre mais custosa de alterar que o para-choque) manteve o formato.

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