Mercedes-Benz Classe A: a correção dos rumos de estilo

 

Após duas gerações com ar de minivan, o compacto ganhou
desenho esportivo e mais fiel às tradições de qualidade da marca

Texto: Edilson Luiz Vicente – Fotos: divulgação

 

A trajetória do Mercedes-Benz Classe A é bastante peculiar. Em se tratando da marca da estrela, o que seria impensável há 30 ou 40 anos se tornou realidade em 1997: o lançamento de um modelo compacto de formato monovolume para um segmento abaixo do Classe C. Impensável porque Mercedes-Benz é sinônimo de produtos superiores, luxo e qualidade, objetos a ser desejados — e flertar com um segmento, digamos, mais “popular” permite imaginar o quanto a ideia causou frio na espinha de muitos executivos. É provável que tenha demorado muitos anos e demandado várias pesquisas até haver o sinal verde nesse sentido.

Por causa das altas somas necessárias para se criar e fabricar um carro, todas as decisões são importantes e difíceis — razão de existir procedimentos muito sérios durante todo o projeto para tentar eliminar ou minimizar erros. Mesmo assim, a possibilidade de algo dar errado ainda existe, e no caso do Classe A isso aconteceu. Como uma empresa da magnitude da Mercedes, com toda a seriedade alemã, deve ter encarado os problemas quando, em teoria, tudo deveria ter saído impecável como ela sempre fez?

Em geral, uma das funções do estilo é representar o que a marca está oferecendo por meio do produto. O desenho pode transmitir sensações de luxo, robustez, diversão, classe, esportividade. No caso do primeiro Classe A, ele demonstrava toda a ousadia pela qual a marca estava dando seus passos — de fato, era um modelo compacto diferenciado dos demais. Mas a ousadia resultou em controvérsia e, como em tudo que é controverso, foi mais difícil agradar à maioria.

 

O atual Classe A, mesmo que não tenha a ousadia do primeiro, consegue uma das coisas que se espera de um Mercedes: ser referência

 

Some-se esse fator à ideia de um Mercedes de entrada, que necessitava de tempo para se acostumar, e a fatos como a reprovação no “teste de desvio de alce” feito por uma revista europeia, e o resultado é um carro que não obteve grande aceitação. As melhorias técnicas e modificações estéticas feitas na segunda geração não foram suficientes para tornar o modelo atraente. Afinal, como mudar a imagem de um produto mantendo a arquitetura e a estética bem semelhantes, sabendo que o estilo transmite uma mensagem?

Se já era fato curioso a Mercedes-Benz se meter nessa encrenca, ainda mais difícil é entender por que ela não mudou toda a estratégia na segunda geração para corrigir a história do Classe A. Lições enfim aprendidas, a terceira geração chegou em 2012 quebrando todos os laços com as anteriores. Sim, o novo compacto tem uma arquitetura bem comum e até dimensões parecidas com as de seus concorrentes diretos, mas percorre um caminho menos arriscado e com maior probabilidade de sucesso.

 

 

Pode-se dizer que o atual Classe A, mesmo que não tenha a ousadia do primeiro, é um bom exemplo a ser seguido: é um hatchback que nos leva a pensar que todos deveriam ser desenhados como ele — justamente uma das coisas que se espera de um Mercedes, ser referência. Como é padrão da marca, o estilo transmite a sensação de qualidade, as proporções de toda a carroceria e seus detalhes são muito bons e a aparência mostra-se jovial e esportiva, adequada ao segmento a que pertence.

Um destaque é o longo capô, item da velha escola que não é muito usado hoje (e nem seria necessário, dado o motor transversal), mas formou um conjunto interessante e atraente junto com detalhes estéticos modernos, como a linha de cintura alta e as janelas de perfil baixo. No mais, exceto pela traseira muito simples e trivial, ele evidencia todas as características estéticas da identidade da marca e visto por qualquer ângulo chama a atenção, transmitindo a boa sensação de que possui algo a mais que os outros.

A conclusão é que a Mercedes-Benz dessa vez acertou na receita. Existem aqueles consumidores que buscam um meio de locomoção de forma racional e aqueles que têm prazer de olhar o carro na garagem. As gerações anteriores atraíam apenas o primeiro tipo; agora o Classe A certamente atrai ambos.

 

 

  O pessoal de estilo da Mercedes encontrou uma solução interessante para os tradicionais vincos presentes na maioria dos carros. São o recurso estético mais importante e diferenciado da lateral e foram esculpidos na medida certa, pois são notados facilmente sem, no entanto, chamar demais a atenção.

  Um tipo de trabalho bom de observar: o vinco alinhado com o da saia lateral não chama a atenção, mas faria falta se não estivesse aí. Proporciona qualidade visual e no acabamento.

  Difícil crer que um detalhe tão comum como esse vinco descendo até a tomada de ar do para-choque esteja em um carro tão novo. Mas ficou bom: tem tudo a ver com o desenho do modelo e também não chama muito a atenção.

 

 

  A área em preto é de aparência comum até demais em se tratando de um Mercedes-Benz. Uma solução diferenciada seria bem vinda, até para as saídas de escapamento.

  Um pequeno vinco que dá a ideia de continuidade de um dos elementos da lanterna. Quase insignificante, mas não faz nenhum mal estético — ao contrário, pois é alguma coisa em uma traseira que peca pelo excesso de simplicidade.

  Não deixa de ser uma curiosidade: o pequeno vinco alinhado com o da saia lateral vem da velha escola, mas tem seu charme e reforça o toque esportivo.

 

 

  Um trabalho bem feito é assim: como há os vincos principais da lateral (que, como descrito acima, devem ser o foco da atenção), as molduras das caixas de rodas são discretas. O que poderia ser um vinco na linha de cintura posterior foi bastante suavizado para não chamar a atenção para si, o que evita concorrer visualmente com os outros dois e poluir o visual com muitas linhas.

  A linha de cintura alta e o perfil bem baixo das janelas estão contribuindo para um visual robusto e esportivo. O contorno das janelas é de uma simplicidade enorme, mas muito bem feito. Realmente não era necessário mais do que isso.

  Esse ponto do capô aparenta ser um pouco alto, quando na realidade não é. A impressão é causada pelo teto baixo, o perfil das janelas bastante estreito e a linha de cintura alta.

 

 

  Como muitos carros de apelo esportivo, o novo Classe A é baixo e largo, itens que contribuem para a boa aparência de um automóvel. O desenho do para-choque e de suas aberturas deu um bom e diferenciado resultado estético.

  Tradicional, mas belo contorno da grade principal, assim como o emblema em destaque acima das largas barras.

  Como sempre acontece em identidades de estilo tão fortes e tradicionais, não é aconselhável brincar muito com os contornos dos faróis para não correr o risco de descaracterizar a identidade ou obter um resultado discutível. O item mais diferente aí é a linha que acompanha a curva da grade. Se não é a solução mais bela vista em um Mercedes, também está longe de ser a pior.

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