Ford Fiesta: a atualização de um desenho bem-sucedido

 

Reestilizações nem sempre alcançam bons resultados, mas
nesse caso houve um trabalho eficaz sobre uma excelente base

Texto: Edilson Luiz Vicente – Fotos: divulgação

 

A maioria dos produtos tem um tempo de vida útil no mercado, mas, devido à dinâmica das mudanças do cotidiano, o estilo tem um ciclo de vida menor que o do produto em si. Em especial no caso dos automóveis, como se trata de um investimento muito alto por parte do fabricante, a forma de manter o modelo o maior tempo possível no mercado, preservando o interesse do consumidor por ele, é fazer atualizações periódicas, as chamadas reestilizações.

É normal acontecer uma, duas ou até mais atualizações de estilo durante a geração de um carro. O tempo de cada uma acontecer e a quantidade de modificações em cada uma delas dependem de vários fatores: como anda a aceitação do modelo, o momento econômico, a saúde financeira da empresa. Até mesmo o desgaste do ferramental de produção da carroceria pode ser um fator: como é necessário refazer as ferramentas, pode ser conveniente investir um pouco mais e aproveitar para atualizar o estilo do modelo.

Por observação é possível notar que nos países desenvolvidos, salvo em períodos de crise aguda, é feita uma atualização não muito radical — para-choques, grade, faróis, lanternas — dois a três anos após o lançamento do modelo e, após quatro a seis anos de produção, há a substituição por uma geração toda nova. Claro que há exceções, caso do sério problema de aceitação do atual Honda Civic nos Estados Unidos, que obrigou a Honda a atualizar o modelo apenas 18 meses após seu lançamento.

 

 

Já no Brasil, assim como em outros países ditos emergentes, o mercado é tão peculiar que não há uma lógica a ser observada. Os carros produzidos aqui são mais longevos e, em alguns casos, extrapolam em muito a média mundial de ciclo de vida de um carro. O fato é que atualizações são necessárias e, ao contrário do que se possa imaginar, há situações nas quais seria mais fácil trabalhar um estilo a partir do zero — fazendo um modelo todo novo — que modificar um já existente.

Não há como fazer milagres na indústria. Sendo a base boa, isto é, o carro já tendo um bom estilo original, um bom resultado pode ser alcançado na reestilização; se a base for ruim ou estiver muito ultrapassada, o máximo que se consegue é torná-la um pouco mais aceitável. Em qualquer dos casos, como se trata de um item subjetivo, sempre pode haver divergência de opiniões. Então, criatividade com bom senso sempre será o pilar que faz a diferença para os melhores resultados.

 

Não se tentou reinventar o estilo: chamar a atenção pelas qualidades e não por estranhezas traz um retorno obviamente melhor

 

O novo Ford Fiesta, nosso assunto de hoje, passou por uma atualização que pode parecer precoce, com menos de dois anos no mercado brasileiro. Isso aconteceu porque a atual geração foi lançada em 2008 na Europa e, com a decisão de produzi-la localmente, nada mais acertado que o fazer atualizado. Mesmo a versão anterior — que vinha do México — sendo atraente, é melhor sabermos que o modelo não está defasado em relação à Europa e que agora está de acordo com a nova identidade de estilo da marca. Não é exagero dizer que, quando toda a gama Ford no Brasil estiver atualizada — o que não deve demorar muito —, será uma das linhas mais interessantes entre os fabricantes nacionais em termos de estilo.

O primeiro ponto que chama a atenção para esta atualização é o grau de diferenciação da dianteira em relação à anterior, pois estamos acostumados a alterações bem menos radicais. O mais importante em um trabalho de atualização — e o que requer mais experiência e habilidade, sobretudo quando a mudança visual é grande — é não deixar parecer que enxertaram partes de outro carro. No Fiesta, conseguiu-se interpretar a nova identidade de estilo mantendo todo o conjunto em harmonia.

 

 

O restante da carroceria, apesar de já estar no mercado global em seu sexto ano, continua aparentando ser uma novidade graças ao trabalho muito bem executado das proporções e ao equilíbrio dos detalhes de desenho, que resultam em uma aparência sofisticada, jovial e com um toque esportivo. Não se tentou reinventar o estilo com detalhes estranhos ou muito marcantes, que poderiam prejudicar ou envelhecer o modelo rapidamente. Chamar a atenção pelas qualidades e não por estranhezas traz um retorno obviamente melhor; daí o Fiesta ser o hatch compacto mais vendido na Europa hoje.

Um dos itens que compõem o estilo Kinetic, como a Ford chama sua filosofia de desenho, é passar a sensação de movimento. É a razão pela qual a linha de caráter da lateral e a linha inferior das janelas têm uma inclinação bastante acentuada em direção à traseira, o que reforça a sensação de dianteira baixa e traseira alta, fazendo parecer que o carro quer sair andando mesmo quando estacionado. Essa atitude é um dos fatores mais interessantes desse estilo. É verdade que prejudicou um pouco o visual da versão sedã, por forçar a traseira a ser demasiada alta, mas o hatch ficou muito bom.

Para finalizar, não temos o hábito de comentar sobre as rodas dos carros — apenas quando chamam a atenção por alguma razão. Na realidade elas podem fazer muita diferença, tanto positiva quanto negativamente, mas nesse caso a versão de 15 polegadas e cinco pontas do Fiesta SE parece ter um desenho antigo, enquanto a de 16 pol e muitos raios do Titanium não combina muito bem com o carro. Assim, o item deixa de cumprir sua função estética de valorizar a aparência do automóvel, um ponto que a Ford deveria considerar em uma próxima atualização.

 

 

  Uma das linhas de caráter mais marcantes do mercado. Abaixo do vinco está uma superfície que cria sombra, enquanto o detalhe mais embaixo capta luz. Juntos, formam um bom recurso estético, que deixa a região central da lateral rebaixada e traz uma aparência musculosa ao modelo.

  Além dos discretos vincos que emolduram as caixas de rodas, há esses vincos adicionais que evidenciam os para-lamas salientes: mais um detalhe que complementa a aparência musculosa. Toda a lateral do carro foi bem esculpida.

  Atenção dada a todos os detalhes: essa superfície que capta luz e o vinco logo abaixo dela estão alinhados com seus respectivos da lateral, formando a continuidade visual. Criar essas relações e alinhamentos é uma forma de obter um bom nível de acabamento estético.

 

 

  A tampa traseira é uma peça que em geral requer um alto investimento para ser modificada. Se não houver disposição em mudar o visual o máximo possível (por exemplo, passar a placa de licença para o para-choque, alterar o contorno do vidro traseiro ou adicionar um complemento às lanternas), pode não compensar o gasto. É por isso que a Ford manteve a peça nessa atualização. Sobre a aplicação dos logotipos, lamentável a posição do Titanium, que parece colocado no último momento.

  Já o para-choque traseiro é novo, mas as diferenças são tão sutis que certamente passará despercebido por muita gente. Essas são duas das alterações mais relevantes do para-choque; a terceira é a área em preto. Não foi um dinheiro bem gasto: o modelo merecia mais.

  As lanternas em geral são componentes ingratos de atualizar. Sem a possibilidade de mudanças nos contornos, que implicam alterações em chapas, as modificações só ficam evidentes se houver novo conceito de iluminação, como uso de leds. Em caso contrário, também passam despercebidas por muita gente. De qualquer forma, é uma boa traseira e que permanece atual.

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