Chevrolet Vectra, estilo que andou mesmo à frente

 

Primorosa no conjunto e nos detalhes, a segunda geração
representou o ápice do grande momento da GM nos anos 90

Texto: Edilson Luiz Vicente – Fotos: Fabrício Samahá (Vectra 1997) e divulgação

 

Os anos 90 foram um período de particular interesse para a indústria automobilística brasileira. O então presidente da República, após chamar os carros nacionais de “carroças”, provocou a reabertura das importações com a justificativa de impulsionar a indústria local a atualizar seus produtos. O comentário do presidente teve grande repercussão e, apesar das boas lembranças e do carinho que temos por vários dos modelos da época, a realidade é que na época ainda comprávamos automóveis projetados nos anos 60 e 70. Assim que os importados começaram a circular pelas ruas, a diferença ficou bem evidente.

Sem demora a indústria brasileira se mexeu e, antes da metade da década, já havia modelos lançados em sincronia com a Europa. Entre as fábricas atuando no Brasil, a General Motors foi a mais ousada ao renovar sua linha, apresentando vários produtos de estilo e qualidade similares aos europeus da Opel, bem superiores a seus modelos anteriores e aos concorrentes mais antigos. Seu destaque no cenário brasileiro fez com que nunca um mote fosse tão justo quanto o seu na época: “Andando na frente”.

Enquanto o Omega reinava como o melhor e mais luxuoso carro nacional, S10 e Blazer iniciavam com sucesso o segmento de picapes e utilitários esporte médios e a família Corsa chacoalhava o segmento de carros pequenos, foi o Vectra de segunda geração — fabricado no Brasil entre 1996 e 2005 — o maior expoente da marca nessa tão frutífera década. Foi um fenômeno: mesmo sendo um sedã médio-grande de preço relativamente alto, tornou-se o segundo modelo mais vendido do País, atrás do Gol e à frente de todos os outros compactos. Um feito superado na história apenas por seu antecessor, o Monza, que havia sido o mais vendido do mercado entre 1984 e 1986.

 

 

Além de suas qualidades técnicas e dinâmicas, o Vectra chamava a atenção ao primeiro olhar pelo estilo. O carro era muito bem proporcionado, havia harmonia em todo o desenho. Das linhas básicas aos detalhes, não havia nada exagerado ou fora de lugar, grande ou pequeno demais. E dois elementos que são úteis para qualquer modelo, o Vectra tinha de sobra: seu estilo expressava muita modernidade e jovialidade — até uma pegada esportiva —, pelo que aparentava estar à frente da concorrência.

Seu desenho em geral mantinha um parentesco com a primeira geração, lançada na Europa em 1988 e produzida aqui sem grande êxito entre 1993 e 1996. Basta olhar para o formato das janelas laterais, que conservaram a terceira janela, assim como a grade dianteira com a disposição dos faróis e os detalhes em preto nos para-choques. Tudo isso fazia parte do tema de ambas as gerações, mas esses detalhes — e todo o conjunto — passaram por uma evolução estética tão grande, e as superfícies foram trabalhadas de tal forma, que o carro ganhou uma aparência mais robusta, imponente e elegante. Quando comparadas, a primeira geração ficava tão envelhecida e acanhada que parecia se tratar de um carro de uma categoria abaixo.

 

Dois elementos úteis para qualquer modelo, o Vectra tinha de sobra: seu estilo expressava muita modernidade e jovialidade — até uma pegada esportiva

 

Não se pode deixar de comentar a respeito dos espelhos retrovisores externos do Vectra. Um item que em geral nem chama a atenção teve uma solução estética tão inusitada, com a ideia de “nascer” no ressalto do capô, e ficou tão bem feito que valorizou ainda mais o estilo do carro, tornando-se um dos itens mais comentados de seu desenho.

Essa segunda geração do Vectra passou por uma atualização que chegou ao Brasil no modelo 2000. Se na teoria deveria melhorar ainda mais o visual, na prática perdeu-se um pouco do charme com as mudanças nos para-choques e na traseira e o desenho adotado nas saias laterais. Curiosamente, nem seu sucessor europeu (lançado em 2002) nem o brasileiro (desenvolvido a partir do Astra alemão e apresentado em 2005) chegou perto de obter o mesmo resultado em termos de estilo.

A perda de apelo estético, somada a uma concorrência feroz de Honda Civic e Toyota Corolla, deixou o Vectra para trás na década de 2000. A terceira geração não herdou os atributos necessários para repetir o êxito da segunda, tampouco teve força para fazer frente à concorrência e dar continuidade ao nome, encerrando um capítulo ímpar na história da General Motors e, por que não, da indústria automobilística brasileira.

 

 

  A grade dianteira com essa moldura bem simples era parte da identidade da marca. As finas barras horizontais enriqueciam o visual. A abertura do para-choque também era de uma simplicidade total, mas tinha harmonia com o conjunto. Note a superfície inferior da abertura que capta luz e segue até a caixa de roda, formando uma espécie de defletor. Muito bom.

  Não havia um espaço emoldurado ou que simulasse uma abertura para abrigar os faróis de neblina. Na versão CD, que trazia o componente, o para-choque era recortado nessa região; quando ele não existia, como no GLS mostrado, ficava um interessante e limpo visual. Era uma solução bastante usada pelos modelos da Opel.

  Os faróis estavam entre os primeiros do Brasil com refletores duplos, mas ainda usavam lentes de vidro — as de policarbonato viriam na reforma visual de 2000. A moldura de proteção em preto formando um gráfico com os faróis foi uma solução muito boa, que enriquecia e dava beleza ao visual. Nessa época era impensável fazer algum contorno diferenciado.

  Os espelhos com essas capas, como se fossem prolongamentos do ressalto do capô, foram uma solução estética brilhante e diferente de tudo que existia até então. Eram um ponto alto do estilo do Vectra.

 

 

  Solução que até hoje é usada aqui e ali: um vinco demarca uma superfície que capta luz e dessa forma se faz um jogo de luz e sombra, que proporciona uma estética interessante, simples e de bom acabamento.

  A superfície formando a ideia de um defletor já é usada há tanto tempo e não cansa. Aliás, a Opel foi uma das primeiras a adotá-la, no cupê Calibra de 1989. Passa a sensação de o carro ter sido esculpido pelo túnel de vento e sempre ajuda a dar um toque esportivo.

  Tal qual a solução estética da dianteira, a moldura de proteção em preto forma um gráfico com as lanternas. Se observada com atenção, forma ainda uma linha de contorno com a quina superior da tampa traseira: bom trabalho.

  Apesar da simplicidade dos contornos e da tecnologia comum da época, as lanternas eram bem feitas e agregavam valor estético à traseira. O uso de lâmpadas alaranjadas e lentes incolores, em vez da lente das luzes de direção em laranja, dava mais charme ao conjunto. Na versão CD a mesma seção vinha em tom escuro.

 

 

  O uso de uma terceira janela lateral é tão antigo quanto se pode imaginar, mas resiste a qualquer ação do tempo ou modismos. A necessidade em tê-la ou não depende somente do tema de estilo escolhido. Nesse caso ficou um visual harmonioso e coerente com a tendência de colunas estreitas que vigorava na época.

  Uma simplicidade extrema na execução dessa superfície “pegadora de luz”, a ponto de enriquecer esteticamente a lateral quase sem ser notada. Apesar disso, sem ela aparentaria que está faltando algo.

  Nessa época era valorizada uma boa área de visibilidade, por isso a linha de cintura baixa. Olhando hoje pode parecer um pouco estranho, mas para seu tempo estava tudo muito bem proporcionado.

  Assim como praticamente tudo nesse carro, as molduras das caixas de rodas eram bastante simples. Funcionavam mais para proporcionar bom acabamento do que como detalhe estético do modelo.

Próxima parte