Peugeot 208: uma aposta na qualidade de desenho

 

Sucessor de modelos de sucesso, o compacto adota uma
nova filosofia de estilo e não abre espaço para controvérsias

Texto: Edilson Luiz Vicente – Fotos: divulgação

 

Em nossas análises costumamos comentar sobre a influência que o estilo exerce no sucesso de um automóvel. Às vezes o estilo pode ser bom, mas não o suficiente para o êxito, se outros fatores — como a imagem da marca, a qualidade do produto e a do pós-venda, seu posicionamento de mercado e o preço — não estiverem em patamares adequados ou favoráveis. Mas, se todos os fatores estiverem a favor e o estilo não ficar à altura, esse item pode influenciar de forma negativa e o sucesso também acaba por não ser alcançado.

Em suma, deve existir equilíbrio — e, mesmo o estilo sendo algo subjetivo, que por consequência não pode ser medido, não dá para negar sua importância. Um bom exemplo para ilustrar o quanto o estilo pode influenciar são os Peugeots da série 200, já que nosso assunto de hoje é o 208.

Enquanto na Europa o modelo 205 foi um grande sucesso que vendeu mais de cinco milhões de unidades, por aqui as vendas ainda eram tímidas porque a Peugeot estava no início de suas operações. Quando inaugurou sua fábrica no Brasil, passo decisivo para consolidá-la, lançou o 206 nacional — modelo cujo estilo caiu em cheio na graça do público, tornando-o um sucesso em nosso mercado e confirmando o já estrondoso êxito obtido na Europa.

 

 
Álbum de família: com os modelos 205, 206 e 207 (o original francês, diferente
do brasileiro), a Peugeot fez o histórico de sucesso a que o 208 veio suceder

 

O ciclo de vida do 206 francês chegou ao fim dando lugar ao 207, um modelo todo novo, que trazia consigo uma atualização na identidade de estilo da marca. Contudo, essa nova identidade não obteve o mesmo sucesso do 206 — e no Brasil foi ainda pior, com a opção de manter o já antigo 206 com uma atualização parcial, que o aproximava da novidade francesa, e renomeado para 207. A solução não cativou o público, as vendas caíram e foram piorando a cada ano.

Lições aprendidas, a Peugeot tenta se erguer defronte a má fase que assola o mercado europeu, com planos de agir mais forte em termos globais para não mais depender tanto do Velho Continente. O primeiro reflexo disso aparece no estilo, que deve ser executado de forma a ser aceito em diferentes mercados. E assim a Peugeot atualizou novamente sua identidade de desenho, aparentemente levando o tema mais a sério.

 

Em todo o carro podemos notar algum trabalho estético adicional, mas dessa vez tudo aparenta ser mais bem planejado, sem causar estranheza

 

Sem fugir de sua tradicional característica — a aparência felina, percebida na forma dos faróis —, abandonou o uso de faróis e grade gigantescos, entre outros recursos estéticos controversos. E o mais novo fruto é o 208, que chegou muito bem às ruas da Europa e já se tornou um dos mais vendidos em sua categoria. Com méritos, pois o estilo do 208 em geral está bem acertado e equilibrado, em acordo com as boas proporções da carroceria, e chama a atenção que o desenho ainda tenha toda a ligação com as duas gerações anteriores. Mesmo sem emblema algum, não seria difícil adivinhar de que modelo se trata.

A aparência geral é limpa, mas a Peugeot gosta de incrementar o visual com uma quantidade razoável de detalhes. Em todo o carro podemos notar algum trabalho estético adicional, mas dessa vez tudo aparenta ser mais bem planejado: são detalhes que não causam estranheza ou controvérsia, mas sim enriquecem ou dão graça, como deve ser.

 

 

O 208 aparenta ser uma novidade, o que é bom. Expressa esportividade e jovialidade e, apesar do trabalho que a engenharia fez de reduzir peso em relação à versão anterior, o estilo expressa o contrário — aparenta ser um pouco pesado, por causa do visual robusto. Como o carro, mesmo em sua versão brasileira, não é alto em relação ao solo, também ajuda a dar essa impressão, mas nada disso de forma negativa — muito pelo contrário.

O maior destaque no desenho da dianteira é a nova grade que, segundo a própria Peugeot, foi feita para dar a impressão de flutuar. Tem boas proporções em relação ao estilo do carro, mas ficou posicionada um pouco baixa. O resultado estético mostra por que a maioria das empresas opta por fazer grades com desenhos bem integrados ao estilo.

O 208 tende a agradar bastante também por aqui. Uma pena não haver sinais de a versão de três portas ser vendida no Brasil, pois ficou até mais interessante que a de cinco portas. É uma questão cultural brasileira dos tempos recentes não aceitar bem modelos de duas ou três portas e, por conta dela, deixamos de lado automóveis de estilo muito interessante.

 

 

  A maneira mais fácil é recorrer aos faróis de neblina circulares, mas nesse caso, apesar da interessante moldura cromada, eles ficaram pequenos e baixos demais. O estilo do carro pede algo de aparência mais rica e moderna, como é o caso dos faróis e das lanternas.

  A transição do capô para as colunas é bem suave. Por conta disso, esse ponto está bastante alto e adiciona um volume desnecessário à parte dianteira, que desequilibra levemente o bom trabalho das proporções. Mas não é tão sério a ponto de criar controvérsia.

  Na versão com teto de vidro há essa divisão com acabamento de aço polido. Interessante.

  Estamos acostumados a ver molduras cromadas em torno das janelas em carros de luxo. Não é usual nem necessário em um hatch, mas não deixa de valorizar e enriquecer o visual.

 

 

  A tampa traseira ficou com boa aparência com essa solução estética para o rebaixo da placa de licença e, em especial, com a linha de corte diferente do usual. Em um tipo de carro no qual o espaço no porta-malas não é usado como apelo de vendas, fez muito bem ao estilo não se preocupar tanto com a eficiência da área de abertura. Há vários casos em que a preocupação exagerada prejudica bastante o estilo.

  O contorno do vidro traseiro é simples, bem proporcionado e harmônico com o estilo da traseira e do carro em geral. Traseira essa bem diferente das versões anteriores, mas atraente e com ligação a elas.

  A Peugeot gosta de adicionar detalhes. Essa não é uma simples borda da caixa de roda: no lugar de marcá-la apenas com um vinco, é uma superfície levemente rebaixada, o que a deixou interessante.

  O carro tem como tema o estilo mais arredondado, daí o uso moderado de vincos. Para dar caráter à linha de cintura foi adotada essa linha com certa suavidade, mas que sugere aparência musculosa, o que é bom para o toque esportivo que o 208 pretende.

 

  Esse pequeno músculo é mais um detalhe que remete ao 206, mas é discreto e bem esculpido. A sombra que ele forma está auxiliando a “quebrar” um pouco do volume em excesso que há nessa área, como já comentado.

  A linha inferior da janela nas portas dianteiras é baixa para os padrões atuais de janelas com perfil muito estreito. Essa quebra no contorno foi uma ótima solução estética para essa região à frente da porta não ficar muito grande.

  Como acontece quase sempre, é necessário adicionar algum detalhe à lateral, não só para estruturar melhor uma grande área de chaparia, mas também para adicionar interesse e graça à ampla superfície. Essa solução foi bem simples e eficiente, um dos poucos usos de vinco. Na versão de três portas ficou ainda melhor.

  Esse contorno da janela traseira foi bem feito. Apesar de estar combinando, também poderia ter um pouco mais a ver com o contorno da janela da versão de três portas.

Próxima parte