Panamera: controverso, mas um Porsche de verdade

 

Causador de grande polêmica, o cinco-portas da marca
alemã respeita em tudo, ou quase tudo, suas tradições de estilo

Texto: Edilson Luiz Vicente – Fotos: divulgação

 

Existem produtos que têm um estilo tão marcante, ou mesmo tão bem feito, que não precisam sofrer grandes modificações com o passar do tempo — e arriscaria dizer que, se tivessem sofrido alguma muito radical, teria sido a ruína do produto. Como exemplos há o triturador de pimenta da Peugeot (sim, a própria, mais conhecida por fabricar automóveis), criado em 1842, ainda produzido com seu estilo original e muito copiado até hoje; a famosa garrafa de Coca-Cola, lançada em 1915; a cadeira Wassily, criada em 1925; a poltrona e o pufe Eames Lounge, de 1956, e até mesmo a tão conhecida caneta Bic, que vem de 1950.

Exemplos como esses nos dão a sensação de que ainda os veremos, tais e quais são hoje, ainda por tantos anos a perder de vista — nem dá para imaginá-los diferentes do que são.

A Porsche e seu modelo 911, de certa forma, é um caso semelhante aos exemplos citados acima. É um estilo que em hipótese nenhuma pode ser perdido para não arruinar o produto e que, de tão marcante e icônico, se confunde como uma indissociável imagem que simboliza a marca. O resultado é que, de maneira obrigatória, esse desenho é transferido para qualquer carro pertencente à marca para obter seu status e ser considerado um legítimo Porsche.

 

Trabalhar no Estilo da Porsche certamente não é fácil: imagine-se o que é ter de atualizar um 911, ou mesmo fazer um novo carro, sem poder mudar seu estilo

 

Tentativas de quebrar paradigmas foram feitas com o modelo 914, com a série 924/944/968 e com o 928. Apesar da qualidades que apresentaram, ou por mais belos que alguns deles — uns mais que outros — tenham ficado, mesmo os modelos que alcançaram sucesso comercial não o fizeram sem antes causar muita controvérsia por causa do estilo. Depois deles, a Porsche não mais abriu mão de aplicar seu icônico desenho a toda sua linha de produtos. O que não livrou a primeira geração do utilitário esporte Cayenne (que, convenhamos, não tinha no estilo seu ponto forte) e nosso assunto de hoje, o Panamera, de serem alvos de controvérsia.

Trabalhar no departamento de Estilo da Porsche certamente não é uma tarefa fácil. Imagine-se o que é ter de atualizar um 911, ou mesmo fazer um novo carro de tipo de carroceria diferente, sem poder mudar seu estilo! E não se trata de manter apenas a identidade no desenho de uma grade ou dos faróis: nesse caso, tudo tem de ser mantido dentro das tradições, até as formas da carroceria. Apesar do desafio, eles têm se saído muito bem — afinal, a Porsche tem mantido com dignidade seu mítico status.

 

 

Um modelo de quatro portas não é novidade na Porsche: em 1988 ela apresentou o carro-conceito 989 (acima), que era basicamente um 911 esticado e, apesar de interessante, não se tornou modelo de produção. Alguns detalhes de seu estilo foram incorporados ao 911 e, após um hiato de 20 anos dessa ideia, em 2009 a marca finalmente lançou o Panamera, causando — como não poderia deixar de acontecer — grande controvérsia em relação a seu estilo.

As fotos não fazem jus ao modelo: não importa se causa controvérsia ou não, mas ao vivo ele é muito mais interessante. É verdade que qualquer carro baixo, largo e com rodas grandes por si só já chama a atenção, mas o Panamera tem algo mais que essas boas proporções.

A necessidade de manter toda a identidade Porsche causou a maior controvérsia no estilo desse modelo, que é o caimento do teto na traseira e a ausência do porta-malas saliente, que o caracteriza como um hatchback, enquanto seus concorrentes são, em geral, modelos sedãs mais tradicionais. Claro que o caimento do teto poderia ser melhor do ponto de vista estético, e talvez o tenha sido em fases preliminares do projeto, mas — segundo rumores — um executivo da Porsche teria exigido mais espaço para as cabeças dos ocupantes do banco traseiro.

 

 

No mais, suas proporções são muito boas e o jogo de sombras e luzes que se formam nas superfícies foi muito bem controlado — uma qualidade comum em se tratando de modelos alemães. De um modo geral, o Panamera tem uma atitude bastante intimidadora, não só pelas dimensões, mas também pelos para-lamas “musculosos”, as tomadas de ar grandes e a pouca altura do solo que, somados às rodas grandes, o fazem aparentar estar bem grudado ao asfalto.

Apesar das controvérsias, o Panamera é um carro que está à altura de tudo que a marca representa. Quanto mais tempo passamos perto dele, mais interessante ele se torna. A pequena atualização pela qual passou na linha 2014, que ainda não chegou ao Brasil, o deixou com uma aparência levemente mais limpa, sobretudo na traseira. Para quem é fã da marca ou aprecia bons carros e precisa de espaço para levar a família, esse modelo certamente não causa controvérsia alguma.

 

 

  O para-lama mais alto que o capô é coisa de carro esportivo ou de corrida. Como é um dos itens obrigatórios da identidade Porsche, não deixa de ser interessante mesmo para esse modelo. Como o capô precisa ser mais alto que no 911 porque o motor é dianteiro, ficou mais discreto e de acordo com a proposta do carro.

  Com a boa distribuição e as proporções dos elementos da dianteira, foi possível manter todas as características da tradicional frente do 911 sem ter de apelar para vincos, superfícies “pegadoras de luz” ou qualquer outro recurso estético para incrementar ou disfarçar alguma coisa.

  Até a localização das luzes de direção dianteiras está amarrada com a identidade de estilo, mas não há o que reclamar: em geral, a frente tem ficado com boa aparência em todos os modelos da marca.

 

 

  Não formar nessa área da tampa o tão comum defletor ajuda a manter a proposta de um estilo limpo. Foi uma solução muito boa, que fugiu ao trivial, adequada a um carro dessa categoria.

  O aerofólio escondido dentro do contorno da janela traseira, quando não está em uso, foi uma ideia bem pensada: em geral aerofólios poluem o visual, sobretudo em carros que não são puros esportivos.

  A pequena moldura que pode ter o acabamento cromado ou em preto, como nesse caso, parece aplique de carro barato. Acredito que a Porsche percebeu que não tinha nada a ver, pois tirou a moldura da nova versão.

 

 

  Os para-lamas abaulados, sobretudo o traseiro, dão um aspecto musculoso — um dos itens principais para a aparência intimidadora do Panamera.

  Os faróis têm o contorno e o trabalho interno bem típicos da Porsche, exceto por aquele leve “S” na parte frontal, perto do bico do lavador, que ficou um pouco estranho.

  Por necessidade para abrigar o motor ou puramente por estética, o fato é que ficou muito interessante esse “músculo” demarcado por vincos no centro do capô. Não são tão pronunciados para combinar melhor com o estilo do carro, que faz pouco uso de vincos.

Próxima parte