Mercedes-Benz SEC, um clássico que dá aula de estilo

 

Muito da imagem conquistada pela marca da estrela vem
de modelos inesquecíveis como esse cupê lançado em 1980

Texto: Edilson Luiz Vicente – Fotos: divulgação

 

O cenário automobilístico, hoje, está bem diferente do que era apenas três décadas atrás. Gigantes encontraram dias difíceis, a Toyota tornou-se o maior fabricante do mundo, empresas sul-coreanas com imagem de qualidade e inovação vêm dando trabalho a marcas de maior tradição, multiplicam-se as fusões entre empresas antes concorrentes para continuarem competitivas ou não desaparecerem.

Há 30 anos, se alguém dissesse que a Volkswagen seria o maior fabricante de automóveis do mundo, ninguém acreditaria — no entanto, ela está brigando para chegar lá. Muito menos alguém acreditaria que a China seria um dos maiores mercados do globo. Casos como um utilitário esporte da Porsche e um Cadillac — o CTS-V — que rivaliza com BMW M5 em desempenho são exemplos que completam esse cenário de mudanças. As distâncias que separavam marcas e modelos pela qualidade e estilo diminuíram muito, acirrando ainda mais a concorrência.

 

Esses modelos estavam bem além da concorrência em sua época e isso marca várias gerações — uma das muitas razões para que a Mercedes ainda desfrute tanto prestígio

 

Mas uma coisa não mudou: o prestígio que a Mercedes-Benz possui. O que não deixa de ser interessante, pois quem acompanha há tempos o mundo automotivo sabe da história, da importância e das qualidades da marca e a admira por isso; e mesmo quem não dispõe de muita informação a respeito percebe que se trata de modelos diferenciados e de uma marca especial.

Se a estrela brilha nos dias de hoje, apesar de todo esse cenário, imagine o que a Mercedes-Benz representava em 1980, época do lançamento da geração do Classe S conhecida pela sigla W126 e, em especial, pela versão cupê 500 SEC, nosso assunto desta edição. Esses modelos estavam bem além da concorrência em sua época e isso marca várias gerações — uma das muitas razões para que a Mercedes ainda desfrute tanto prestígio.

O Classe S lançado em 1980 foi um estrondoso sucesso para um carro de sua categoria — tanto que seu estilo durou 10 anos, algo fora do comum para qualquer carro de qualquer época, e foi um dos modelos mais vendidos na história da empresa. No quesito estilo, além do novo desenho muito bem proporcionado e fiel a toda a identidade da marca, a maior inovação estética foi a adoção dos para-choques envolventes de plástico no lugar dos tradicionais de aço, cromados, usados até a geração anterior.

 

 

Quando o 500 SEC foi lançado, em 1981, o público estranhou um pouco no início. Alguns alegavam que seu desenho fugia um pouco à identidade da marca, fato não muito justificável: mesmo toda sua carroceria sendo nova e diferente da versão sedã — o que em gerações anteriores não acontecia —, perceberemos nesta análise que tinha, sim, todo o DNA Mercedes-Benz. Na prática, suas qualidades rapidamente ganharam os consumidores.

A maior diferença em relação à identidade habitual na época era a grade inspirada na dos esportivos SL, que ficou muito bonita e lhe rendeu uma aparência mais dinâmica e jovial, bem adequada ao cupê. Suas proporções são tão boas que, mesmo passados 30 anos, continuam atraentes. Recursos estéticos deixaram o modelo com um visual esguio e alongado, o que era praticamente mandatório na época — tudo isso sem perder a atitude imponente e clássica e a percepção de qualidade, típicas do que se espera de um Mercedes.

 

Algumas evoluções de estilo, na Mercedes e em outras marcas, provocam controvérsia — e o 500 SEC prova que a simplicidade pode ser tão marcante quanto as inovações

 

Apesar de toda a evolução do estilo nos últimos tempos — como coberturas dos para-choques bem integradas aos desenhos das carrocerias, faróis e lanternas com lentes em peças únicas e com elementos internos bem trabalhados, vãos de carroceria menores —, o 500 SEC ainda chama bastante a atenção, razão pela qual alcançou o status de carro clássico, com admiradores em todo o mundo.

Algumas evoluções de estilo, aplicadas pela própria Mercedes-Benz e por outras marcas, provocam algumas controvérsias — e o 500 SEC prova que a simplicidade pode ser tão marcante quanto as inovações, que o diga Walter de Silva, chefe de estilo da Volkswagen. Foram trabalhos como esse que tornaram Bruno Sacco, chefe de estilo da Mercedes-Benz por mais de 20 anos, uma lenda do estilo de automóveis.

A Mercedes-Benz tem trabalhado para manter todo seu brilho, criando novos modelos para atender a outros segmentos e aumentar sua vitalidade econômica, assim como andou trabalhando em diferentes direções de estilo. Algumas delas fazem parecer que a empresa se esqueceu de proporcionar ao consumidor o que foi sentido na ocasião dessa geração do Classe S: estar diante de um produto especial em todos os sentidos.

 

 

  Para-choques envolventes em material plástico eram uma inovação estética, mas não representaram uma mudança muito radical na aparência. Optou-se por uma transição: ainda se nota uma área mais saliente para proteção, como era a função dos para-choques metálicos. O grande vão na horizontal que separa o para-choque da carroceria também é uma coisa de época: não é bonito para os dias de hoje, mas funcional em caso de pequenas colisões.

  Apesar de ser divulgado na época que a carroceria era toda exclusiva do cupê, o para-lama dianteiro aparenta ser idêntico ao do sedã. A grande distância da caixa de roda até a porta é muito interessante, sendo usada até hoje tanto pela Mercedes quanto pela BMW.

  O retrovisor fixado na base da coluna já era usado desde os anos 70 e fez escola, sendo aplicado até hoje em muitos modelos.

  Também típico de uma fase de transição: as bordas das caixas de rodas ainda tinham formas semelhantes às usadas nos anos 70. O modelo foi inovador sem ser revolucionário, para agradar sem correr riscos ou causar polêmicas.

 

 

  Totalmente o oposto do que é praticado hoje, era quase uma regra de estilo curvar para dentro as extremidades inferiores da carroceria. Isso dava leveza ao visual e a sombra que era criada diminuía a impressão de volume da carroceria, deixando-a mais alongada.

  O vinco demarca uma superfície que capta luz, definindo assim a linha de cintura. O vinco logo abaixo é um detalhe estético herdado de gerações passadas, talvez mantido para que esse modelos não ficasse tão diferente do anterior.

  A coluna traseira, ou C, é que determina toda a beleza de um cupê, a aparência esportiva e o visual dinâmico. Objetivos todos alcançados nesse modelo.

  Outra coisa típica da época: o para-choque traseiro costumava ser estreito e alto em relação ao solo, provavelmente por requisitos aerodinâmicos.

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