Mercedes SLS, impressionante já no desenho

 

Muito se espera do topo da linha esportiva de uma marca
tão emblemática, mas até o SLS poderia ser melhorado

Texto: Edilson Luiz Vicente – Fotos: divulgação

 

Sempre que ouvimos falar de um modelo Mercedes-Benz, o que vem à mente em geral são adjetivos elogiosos; quando se trata de um supercarro da marca ou qualquer um que carregue a sigla SL, a expectativa é sempre maior. Em linhas gerais, exceto por alguns de seus carros-conceito — que melhor seria esquecer que um dia existiram —, os modelos da tradicional marca alemã não sofreram com tentativas de inovação que colocassem seu estilo em risco.

O mais longe que a empresa se afastou de suas características usuais de estilo foi com modelos adicionais a sua gama de produtos, como os Classes A e B ou o CLS de 2004 — casos que mostraram para a Mercedes que seu melhor caminho é mesmo o de manter seus desenhos competitivos e atualizados, sem abrir mão dos itens que compõem sua tradição, tal qual acontece até mais duramente com a Porsche.

 

Comparado com outros carros de sua estirpe, o SLS não deixa de ser fantástico, mas não é nem brutal nem elegante o bastante para ter o devido destaque: não aparenta ter sido criado com um objetivo estético claro em mente

 

Quando o assunto são os supercarros da Mercedes-Benz, só o fato de serem modelos de topo de uma marca tão prestigiada mundialmente já é meio caminho para se tornarem ícones da indústria — mesmo quando não chegam a ser produzidos, caso dos projetos C-111 dos anos 70. Como são carros emblemáticos para a empresa, a Mercedes em geral capricha, como se nota em dois entre os mais importantes de sua história.

O lendário 300 SL cupê com portas “asas de gaivota”, produzido de 1954 a 1957, derivou de uma linha de grandes carros de corrida, incorporou uma série de inovações estilísticas e técnicas e ainda ficou tão bonito e elegante que é muito apreciado até hoje — e valorizado ao extremo. Os responsáveis pelo projeto preservaram toda a estrutura superior dos carros de corrida, mas puxaram as laterais da carroceria para dentro, até o ponto de inventarem carenagens externas sobre as aberturas das rodas para permitir espaço para os pneus. Essas bolhas foram funcionais, mas também decorativas.

 

 

Meio século mais tarde, o SLR McLaren de 2003 (acima) foi inspirado em outro modelo dos anos 50: o 300 SLR de corrida. Projetado em parceria com a renomada McLaren, também entrou para o rol dos ícones da indústria por ser uma obra-prima da engenharia. Seu estilo ficou tão fantástico, e foi tão apreciado, que o desenho frontal inspirado nos bicos dos carros de Fórmula 1 de seu período serviu de inspiração para uma mudança de estilo mais radical no roadster SLK.

O sucessor do SLR como topo da linha esportiva da Mercedes — embora custe bem menos que ele — é o SLS AMG. Um carro que, como não poderia ser diferente, impressiona por todos os aspectos de seu projeto: são tantas as qualidades técnicas que, assim como os supercarros que o precederam, ele também é uma obra-prima de engenharia (leia avaliação do SLS Roadster).

Não é um carro grande — seu comprimento é pouco maior que o de um Classe C —, mas é baixo, largo, com capô bem longo, traseira curta e as rodas grandes posicionadas nas extremidades. Ingredientes de uma receita tão acertada para esportivos que, mesmo antes de ver o carro, já se imagina algo especial. No mais, claramente as diretrizes foram de buscar formas simples e que remetessem ao 300 SL da década de 1950.

 

 

O resultado final, porém, não foi um visual totalmente de carro esporte: há um toque de “carro musculoso” norte-americano, o que não é uma crítica. Comparado com outros carros de sua estirpe, como o Ferrari F12 Berlinetta ou o novo Aston Martin Vanquish, o SLS não deixa de ser fantástico, mas não é nem brutal o suficiente nem elegante o bastante para ter o devido destaque. Nesse ponto, ele não aparenta ter sido criado com um objetivo estético claro em mente, como a traseira denota: mesmo inspirada na do SL dos anos 50, o excesso de simplicidade faz parecer que falta alguma coisa. O mesmo acontece com a coluna central (B) e o contorno do vidro traseiro, itens que têm causado comentários controversos.

Excessos são coisas aceitáveis e até desejáveis quando o veículo de topo da marca deve se destacar no mundo dos supercarros, com seus expoentes italianos. Assim, as famosas portas “asas de gaivota” são o centro das atenções de todo o estilo do carro. Espetaculares em termos visuais, na prática não são uma boa ideia, mas se abre mão da funcionalidade por um charme que não encontra similar por aí.

 

 

  O clássico 300 SL dos anos 50: nessa época era comum, em especial em modelos esportivos, a traseira bem baixa, herança visual dos carros de corrida. De um bom tempo para cá isso se inverteu e parece que vai durar muito ainda.

  Um detalhe quase tão marcante quanto as portas “asas de gaivota”. Será que o departamento de estilo chegou a testar, durante o desenvolvimento do SLS, se ficaria bom trazê-lo de volta?

  Os para-lamas mais altos que o capô na região dos faróis são uma prática comum até os dias de hoje quando o assunto é esportivo.

 

 

  Se por um lado a simplicidade do contorno dos faróis provoca algumas críticas, por outro combina com todo o estilo do carro, além de ajudar a manter a cara de Mercedes-Benz.

  A maneira com que foram desenhadas e esculpidas as entradas de ar ficou muito boa: são simples e bem feitas.

  O contorno da grade dianteira e o emblema são os itens que mais ficaram parecidos com o original dos anos 50. Excelentes, estão entre os pontos mais altos do estilo desse carro.

 

 

  A ideia de alinhar o contorno do vidro com o vão da tampa do porta-malas foi boa, mas atrapalhou fazer um contorno que poderia deixar mais interessante o vidro traseiro.

  Veja essas ponteiras de escapamento: que capricho e como ficaram bem posicionadas dentro das aberturas. A ideia de simplicidade é tão grande que há um vinco discretíssimo que emoldura a região, item que poderia ficar mais evidente.

  É curioso como podemos ver grandes apliques ou formas que simulam os extratores de ar dos carros de competição em modelos sem maior esportividade, enquanto nesse caso — em que certamente há o uso prático — se optou por algo simples e discreto.

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