BMW Série 3: retorno aos bons tempos de desenho

 

  O primeiro Série 3, lançado em 1975. A dianteira inclinada para frente era comum nos anos 70, e a BMW tinha um dos melhores visuais da época.

  Basicamente, esse vinco durou quatro gerações com aparência semelhante. Mesmo sendo modificado nas últimas duas, continua presente.

  Olhe a curva da janela aí: não dá para imaginar um sedã BMW sem ela, de tão tradicional que é. É curioso observar as alterações sofridas através das gerações.

 

 

  Quanta simplicidade, mas tudo no lugar certo e do tamanho certo. Essa traseira serviu de inspiração para outros fabricantes.

  Coluna C pouco inclinada e visual todo bem comportado, mas tudo muito harmonioso. Essa harmonia somada às boas proporções faz esse modelo, com quase 40 anos, ainda ser agradável de se olhar.

  Era um hábito na época e um sinal de qualidade e bom acabamento os para-choques e as molduras laterais formarem um contorno em toda a volta do carro.

 

 

  A segunda geração apareceu em 1981. Muitos carros na época tinham esse recurso da saia lateral pintada em preto para dar leveza ao visual. Ajudava especialmente a disfarçar a diferença de altura em relação à saia inferior traseira.

  A grade dianteira foi uma grande mudança em relação à geração anterior, pois perdia a inclinação acentuada. Era uma frente muito agradável de olhar.

  Em uma época de para-choques destacados da carroceria, cromados ou não, o uso do defletor era muito bem recebido em qualquer situação, e modelos como esse já vinham de fábrica.

 

 

  Outra característica que fez parte da identidade do Série 3, dali em diante, é a placa de licença localizada entre as lanternas. Ao contrário de fabricantes que mudam sua posição com frequência, a BMW a mantém ali desde o segundo modelo da linha.

  O uso de para-choques salientes e destacados da carroceria estava chegando ao fim naquela década.

  Difícil dizer se muitos componentes da carroceria eram os mesmos da geração anterior ou não, mas pelo menos a arquitetura era. A coluna C e as molduras dos para-lamas têm diferenças muito pequenas entre as duas gerações — a maior diferença estava na coluna B, central.

 

 

  No terceiro Série 3, lançado em 1990, o contorno das janelas — mesmo um pouco mais retilíneo — ainda tinha tudo a ver com a identidade do modelo. Essa geração passou sem as janelas serem emolduradas por um filete cromado.

  Foi impressionante uma mudança tão radical na arquitetura e no estilo em geral, mas olhe o vinco aí, como nas duas primeiras gerações.

  Talvez a aposta mais arriscada de todas tenha sido da dianteira, que quebrou por inteiro os paradigmas de estilo da BMW até então ao encobrir os quatro faróis com uma só lente de cada lado. Deve ter tirado o sono de muita gente na empresa até ter sido bem recebido pelo público.

 

 

  Os para-choques, de início seguindo a onda da região inferior em preto, logo passariam a ser pintados por inteiro na cor da carroceria, como na foto anterior. Os detalhes na saia lateral com continuidade nos para-choques eram muito interessantes.

  O conceito de para-choques havia mudado radicalmente, passando a ser uma cobertura plástica envolvente. O curioso é que ainda lembrava muito a aparência do para-choque antigo, de lâmina saliente.

  Ali nascia o defletor integrado à tampa do porta-malas, que se tornaria uma das características de estilo mantidas até hoje. A forma da extremidade da tampa, porém, não nasceu com esse BMW: era muito parecida à do Opel Calibra lançado um ano antes.

 

 

  O estilo do quarto Série 3 (de 1998), em geral, foi uma evolução do anterior — e que evolução. Ganhou corpo e imponência. Se perdeu um pouco de esportividade, ganhou na sofisticação.

  Os vincos no para-choque e suas respectivas superfícies pegando luz, que tinham continuidade nas laterais, eram detalhes bem interessantes.

  Os contornos dos faróis, com essas duas curvas acompanhando os refletores, eram uma novidade que deixava a frente ainda mais bonita. Outra foi o capô descer até o para-choque e abrigar a grade: ficou muito atraente e eliminou o vão entre as peças acima da grade, que prejudica o acabamento.

 

 

  O contorno das lanternas traseiras formando um “L” ficou muito bom e também passou a ser uma característica de estilo do Série 3.

  Mudança radical se considerado que a curva da janela aparentava ser imutável. Mas combinou bem com essa geração.

  Talvez essa tenha sido o Série 3 com o capô mais baixo, perto da abertura da caixa de roda. Era muito esportivo. Impossível repeti-lo hoje por causa das normas de segurança em caso de atropelamento, que exigem distância entre o capô e os elementos contundentes e rígidos abaixo dele.

 

 

  Na quinta geração (2004) as modificações promovidas na grade, que é o mais importante da identidade da BMW, assim como sua execução, foram infelizes.

  Detalhes mal resolvidos como esses dois vão se somando e o resultado prejudica a estética — e traz polêmica.

  O vinco de caráter da linha de cintura finalmente mudou: ficou bem moderno e combinou com o estilo do carro. Já a parte inferior da lateral ficou vazia e sem graça.

 

 

  A lanterna teve a intenção de parecer que mantinha a forma de um “L”, mas ficou com o contorno sem qualquer atrativo.

  Esse chanfro no defletor da tampa do porta-malas foi feito com a intenção de ter uma aparência mais moderna. O resultado estético, contudo, foi duvidoso.

  Essa geração foi cheia de itens mal resolvidos ou sem graça, como acontece no para-choque traseiro. Somando todos esses detalhes, o resultado deixou a desejar.

Análise anterior

 

O autor

Edilson Luiz Vicente é designer com 22 anos de experiência na indústria automobilística, atuados em empresas de grande porte como Volkswagen, Ford e General Motors no Brasil, Isuzu no Japão e General Motors nos Estados Unidos. É um dos poucos de seu segmento com experiência também em projetos e engenharia. Também é professor no Istituto Europeo di Design em São Paulo. Mais informações.