Gemballa: Porsches apimentados e muito mais

 

Conhecida desde os anos 80 pelos 911 superpotentes, a
preparadora retrabalhou também BMW, Ferrari e até McLaren

Texto: Fabrício Samahá – Fotos: divulgação

 

Deixar os carros da Porsche ainda mais rápidos, especiais, desejados: esta tem sido a missão da Gemballa — uma das mais renomadas empresas de preparação voltadas à marca de Stuttgart — nas últimas décadas. Tudo começou em 1981, quando o alemão Uwe Gemballa fundou a G-Topline Automobiltechnik GmbH & Co. KG para equipar e personalizar modelos da Porsche, da Mercedes-Benz e da Volkswagen, aplicando revestimentos de luxo e sistemas de áudio sofisticados.

Não demorou para a empresa começar a fazer preparações mecânicas, não só em Porsches, mas também em outras marcas que sobressaíam nas autobahnen sem limite de velocidade, como a Ferrari com o Testarossa, a BMW com o M635 CSi e a Mercedes com o cupê de luxo 500 SEC, que ganhou carroceria alargada e portas ao estilo “asas de gaivota”. Para o Porsche 930 — o 911 Turbo de primeira geração —, as modificações do pacote Avalanche passavam por frente rebaixada com faróis escamoteáveis, para-lamas bem mais largos e um grande defletor “rabo de pato” na traseira.

 

 

 
A Gemballa nos anos 80: Mercedes SEC, BMW M635, Ferrari Testarossa e Porsche
911 com carrocerias alargadas, motores mais potentes e até “asas de gaivota”

 

Valores de potência que hoje impressionam em muitas preparações não são novidade na Gemballa. O 911 GTR 600 de 1996, por exemplo, feito a partir da série 993, já usava dois turbos no motor boxer de 3,6 litros para obter 600 cv e torque de 73,5 m.kgf, que permitiam acelerar de 0 a 100 km/h em 3,7 segundos e alcançar a velocidade máxima de 325 km/h. O conjunto incluía para-lamas de fibra de carbono, suspensão redimensionada, freios Brembo e frente inspirada em carros de corridas de longa duração, com faróis fixos atrás de carenagens.

 

O 911 Turbo se transformou no Avalanche GTR 800 Evo-R, com uma preparação intimidadora: o seis-cilindros atingia 850 cv e 95,4 m.kgf!

 

Com o lançamento do conversível Boxster, em 1996, a Gemballa passou a diversificar suas opções em Porsches. O simpático roadster ganhava desempenho de supercarro na versão BiTurbo, de 2001, na qual o seis-cilindros de 3,2 litros recebia dois turbos para render 450 cv e 57,2 m.kgf, suficientes para 0-100 em cerca de 5 segundos e máxima de quase 300 km/h.

Um ano depois aparecia o GTR 750 Evo, derivado do 911 refrigerado a líquido. O motor de 3,8 litros e dois turbos impressionava, com 750 cv, e fazia o esportivo alemão acelerar de 0 a 100 em 3,5 segundos com máxima de 362 km/h. Para-lamas alargados, suspensões ajustáveis, freios Brembo e rodas de 19 pol compunham o carro.

 

 

 
O 911 GTE 600, com seu estilo peculiar na frente, fornecia 600 cv já em 1996, mas
a preparadora foi além: em 2002 surgia o GTR 750 Evo, capaz de 360 km/h

 

O supercarro Carrera GT, um dos mais rápidos Porsches da história, também recebeu o tratamento da preparadora. Renomeado Mirage Evolution, foi apresentado em 2006 com dois turbos para o motor V10 de 5,75 litros, que assim desenvolvia 650 cv para 0-100 em 3,8 segundos e máxima de 330 km/h; carroceria toda em fibra de carbono, rodas traseiras de 20 pol (dianteiras de 19) e aerofólio traseiro com um defletor central que atuava com auxílio aerodinâmico nas frenagens.

No mesmo ano, a nova série 997 do Porsche 911 Carrera dava origem a mais um Avalanche, o GTR 650. O motor de 3,6 litros com dois turbos e outros requintes técnicos — como bielas de titânio e três resfriadores de ar — passava a 650 cv e 90,8 m.kgf, que se traduziam em velocidade de 335 km/h e 0-100 em 3,5 segundos. As rodas eram de 20 pol, o interior tinha apenas dois lugares e o alto aerofólio traseiro deixava claras suas intenções.

O Cayman — esportivo de motor central-traseiro da Porsche — passava pelas mãos da Gemballa em 2008. O pacote GT 4.0 RS adotava rodas de 20 pol, novos anexos aerodinâmicos e aumento de cilindrada do motor boxer de 3,4 para 4,0 litros. Foi também nesse ano que o 911 Turbo se transformou no Avalanche GTR 800 Evo-R, um nome pomposo para uma preparação não menos intimidadora: com 3,8 litros e extensas alterações, o seis-cilindros atingia 850 cv e 95,4 m.kgf!

 

 

 
Porsches para todos os gostos: Mirage Evolution (também no alto) com base no
Carrera GT, o furioso 911 Avalanche GTR 800 Evo-R e o Cayman GT RS de 4,0 litros

 

O Gemballa Mistrale, novo batismo para o hatchback Panamera modificado pela empresa, aparecia em 2009. O visual ganhava para-lamas alargados e quatro lanternas traseiras circulares, sendo os complementos à carroceria feitos em fibra de carbono para reduzir o peso em 40 kg; as rodas de alumínio forjado eram de 22 pol, os freios ficavam mais potentes e a suspensão, rebaixada em 40 mm, ganhava ajuste em altura. O motor V8 biturbo tinha a potência elevada a 721 cv e o torque a 102 m.kgf.

 

 

O utilitário esporte Cayenne de segunda geração era o alvo da preparadora no ano seguinte. Chamado de Tornado, como uma das versões feitas sobre o modelo anterior, ele também exibia carroceria alargada com itens de fibra de carbono e quatro lanternas circulares atrás. O motor podia alcançar cerca de 700 cv. Quem preferisse o alto desempenho com estilo mais discreto tinha a alternativa do GT 700, com as linhas originais preservadas.

Em 2009 a Gemballa assumia a posição de fabricante de automóveis, conforme normas do governo alemão, e passava a ser a Gemballa Automobiltechnik GmbH & Co. KG, com nove revendedores em diversos países. No ano seguinte, em fevereiro, vinha a crise: quase ao mesmo tempo em que o fundador Uwe era sequestrado durante viagem à África do Sul (foi assassinado, tendo o corpo sido encontrado apenas em setembro), a empresa era considerada insolvente na Alemanha.

 

 

 
Nem todos gostam do visual, mas qualquer um adoraria acelerar os 700 cv
do Gemballa Mistrale ou do Tornado, versões dos Porsches Panamera e Cayenne

 

Em agosto, porém, as finanças eram recolocadas em ordem e o novo presidente Andreas Schwarz trazia a Gemballa, sediada em Leonberg, próxima a Stuttgart, de volta ao cenário mundial — mundial mesmo, pois 80% dos carros modificados são exportados, com a maior parte deles seguindo para o Oriente Médio. A nova fase trouxe maior variedade ao cardápio da empresa.

Era o caso do MIG-UI, desenvolvido em série limitada de 25 unidades a partir do Ferrari Enzo: carroceria toda em fibra de carbono, rodas de alumínio forjado (de 20 pol no caso das traseiras), sistema de controle da altura de rodagem, interior sofisticado. A mecânica ficou inalterada. Ou do pacote GT para o McLaren MP4-12C, revelado em 2012. Ao lado do conjunto aerodinâmico e das novas rodas (de 20 pol à frente e 21 pol atrás), o supercarro britânico tinha o motor V8 biturbo de 3,8 litros preparado para 600 cv e 61,2 m.kgf, responsáveis por levá-lo de 0 a 200 km/h em 9,1 segundos e à velocidade de 330 km/h.

Mais de 30 anos depois, a Gemballa demonstra estar em plena forma.

 

 

 
Depois da morte de Uwe Gemballa, em 2010, a empresa tomou novos rumos e
preparou esportivos de marcas variadas, como o Ferrari Enzo e o McLaren MP4