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Curiosidades

Paixão por automóvel

As preferências se dividem, mas todos têm em comum o
fascínio por determinada marca ou modelo de veículo

Texto: Fulvio Oriola

Que o automóvel é um dos bens materiais mais desejados do mundo, não há dúvida. Aliás, a dúvida fica só entre a marca e o modelo. Como em tudo na vida, cada um tem suas preferências.

É fácil entender o desejo por um automóvel pela necessidade que quase todos temos de percorrer longas distâncias no dia-a-dia. Mais difícil de compreender é a paixão que algumas pessoas têm por um carro ou marca específica, pessoas aficionadas por um fabricante ou por um modelo em particular.

Cada um tem seus motivos. Pode ser o desenho, a mecânica ou a tradição. Pode ser o prestígio, a qualidade ou algum vínculo afetivo. Neste caso, de motivos emocionais, o gosto não se discute. Mecânica, desempenho, segurança, conforto, qualidade ou acabamento são coisas facilmente mensuráveis. Mas, do desenho em diante, cada um tem seu gosto -- e muitas vezes ele se transforma em paixão.

O leitor Bruno Guedes com seu impecável DKW 1960: "o casal de velhinhos queria reprisar sua primeira noite alugando meu carro"
A maioria dessas paixões nasce no passado. "Minha família sempre teve um carro daquela marca", ou "meu primeiro foi um Volkswagen e isso me marcou muito..." são explicações comuns entre apaixonados por um modelo ou marca. O coração fala mais alto. Bom exemplo vem de um amante de DKW de Brasília, DF, o leitor Bruno Rodrigues Guedes, de 18 anos.

Não só seu próprio coração acelera pelo DKW Belcar 1960, mas o de um casal de velhinhos também: "Num encontro de carros antigos eles ficaram rodeando meu carro, e depois de um tempo me fizeram uma proposta: alugar meu carro por uma noite. É que a primeira vez deles tinha sido num carro igual ao meu, e eles queriam repetir o feito!"

Fora os motivos afetivos, o marketing, o sucesso nas competições e até alguns "bairrismos" são, em parte, responsáveis por essas paixões, muitas vezes até desmedidas. Como explicar que um fã de Ferrari possa, por exemplo, desprezar uma marca como a Porsche -- ou vice-versa? É muito comum a paixão ser cega ao ponto do fã de uma marca criar preconceitos sobre outras marcas - como o antigo "ah, mas é Fiat", que os fãs da marca odeiam mas ainda escutam.
O DKW Candango de Flavio Gomes. Com outro DKW, um Belcar, ele acelerou fundo e encheu o motel de fumaça para chamar a atenção pela demora no atendimento

Preconceito pior é o que conta Flavio Gomes, 36 anos, de São Paulo. Dono de três DKWs (incluindo um jipe Candango), um Karmann-Ghia, um Fusca e uma Lambretta, todos da década de 60, ele diz: "Uma vez fui ao Gallery, boate da moda há algum tempo, e não me deixaram estacionar o DKW na porta de jeito nenhum. Em outra ocasião, estavam demorando muito para me atender num motel, e não tive dúvida. Acelerei e fiz a maior fumaceira!"

E como tudo tem sempre dois lados, a paixão tem quem é a favor e quem é contra. Basta fazer um teste: reúna alguns amigos e pergunte qual carro eles gostariam de ter. As preferências costumam variar de A a Z.

Há pessoas que só gostam de picapes. Não pelo lado utilitário, mas pelo ar robusto ou mesmo pela sensação de "domínio do trânsito" do alto da cabine. O mesmo acontece com carros antigos, que mesmo sem grande valor histórico têm um fascínio especial.

Alguns fãs e proprietários até têm de se adaptar a suas paixões, como Luis Gustavo Miranda, de São Paulo, que tem um Fusca e um Karmann-Ghia, ambos com mais de 30 anos. Segundo ele, "o Karmann-Ghia vem de fábrica com um detalhe muito particular: quando chove muito, vira uma piscina. Com o passar dos anos me tornei um expert em previsão do tempo, sendo capaz de atingir 70% de acerto em minhas previsões de chuva!"
Luiz Fernando Rodrigues já foi fechado no trânsito por outro admirador de Tempra, que queria obter um adesivo do web site do modelo, igual ao de seu carro
Outras histórias pitorescas vêm de dois donos de Opalas: Ricardo Dias Sacco, de 25 anos, de São Paulo, e Emerson Cabañas, 18, de Salvador. Ricardo considera sua paixão pelo carro como uma religião, mas não tenta convencer ninguém a se converter a ela. "Muito pelo contrário: numa viagem recente de uns 1.000 km fui parado várias vezes por policiais, que só queriam ver meu carro."

Já Emerson conta que certa vez seu carro não queria pegar de manhã. Tenta, tenta, tenta, e nada. "Depois de uma conversa de pé-de-ouvido com o bichinho, ele pegou de primeira e nem rateou! Nem os mecânicos souberam explicar..."

Há casos até de indisciplina no trânsito causadas por fanáticos. Luiz Fernando Rodrigues, 30 anos, de Curitiba, PR, conta que já foi "fechado" no trânsito por pessoas que queriam saber sobre seu Tempra e o adesivo do site do modelo que trazia no vidro. O "jipeiro" Francisco Florez, 36 anos, de Indaiatuba, SP, dono de um Toyota, denuncia o comportamento de alguns colegas, que desvirtuam suas paixões "e só se encontram para beber e depois ir zoar nas trilhas". Ele tem toda a razão: não dá para ter paixão sem ter respeito...

O jipe Toyota de Francisco Florez, dando trabalho a seu irmão num atoleiro: "alguns colegas só querem zoar nas trilhas"

Além de todas estas paixões, vale lembrar também a daqueles que gostam de equipar ou "envenenar" seus carros, por puro prazer. Desde o prazer de realizar um trabalho bem feito de estética ou mecânica, até o simples prazer de dirigir. Muitas vezes gasta-se tanto dinheiro com acessórios, modificações e restaurações que daria para comprar outro carro mais novo e com até mais atrativos.

Mas o que fala mais alto é a paixão. O simples prazer de ter e idolatrar um carro especial, não importa em quê. De imaginar-se ao volante de um fora-de-série ou de um carro quase exclusivo. Quando o simples prazer de olhar seu carro parado na garagem não representar mais nada para essas pessoas, uma coisa é certa: elas vão preferir andar a pé.

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Fotos: arquivos pessoais - Ilustração de abertura: Iran Cartaxo

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