Mulheres vs. automóveis, um eterno conflito

Elas não se conformam com nossa dedicação a
eles -- e chegam a tomar atitudes de revolta

Texto: Fabrício Samahá - Ilustração de abertura: Iran Cartaxo

"As meninas sempre elogiaram o cuidado que eu dispensava aos meus carros. Mas se irritavam um pouco quando eu reclamava por elas terem deixado tapetes sujos, e quando eu arrumava desculpas para não dar carona para as amigas delas. Agora tudo está resolvido: removi o banco traseiro do Maverick, esta é a desculpa perfeita!"

"Ela aceitou o fato de que se um dia casarmos, eu poderei comprar o meu Passat V6 e ela um reles Ka 1.0. Isso foi uma conquista, pois para ela todos os carros poderiam ser 1000 que o mundo seria o mesmo... E comprar algo esportivo ou muito luxuoso seria supérfluo e sem razão. Mas ela só aceitou isso se puder dirigir o Passat também! Ninguém é de ferro!"

Luiz Fernando teve o computador ameaçado, mas aprendeu a conciliar o tempo, salvando o equipamento

Depoimentos como estes mostram que a relação entre mulheres e automóveis continua das mais conturbadas. Não que elas dirijam mal -- pelo menos não admitiremos isso aqui -- ou que não combinem com um belo carro. Pelo contrário! Quem ousaria discordar de uma loira num BMW Z3, uma morena num Mercedes SLK ou uma ruiva num Jaguar XKR? Os conflitos entre batons e pistões começam quando se envolvem na história elementos tão importantes quanto... seus maridos, noivos e namorados.

Carlos Eduardo Finck, casado, 33 anos, dono do "Maveco" V8 sem banco traseiro, já enfrentou ciúmes da esposa, Lígia. "Uma vez, numa discussão, houve um comentário do tipo 'você dá mais atenção ao carro do que a mim'. E eu respondi: 'se eu montar nas suas costas, você me leva para onde eu quiser?' Nunca mais tive problemas", conta.

Carlos só voltou a enfrentar dificuldades quando deixou o carburador do V8 desmontado dentro da pia da cozinha, o que -- convenhamos -- poucas esposas aceitariam. "Mas não foi muito sério", acrescenta.

Maurício nunca "consegue" sair com a namorada nos sábados à tarde, por estar mexendo no carro

Problemas também atingiram o namoro de dois anos de Eduardo Albuquerque, 20 anos, com Carolina, 19. E por motivos diversos: "em relação a excesso de velocidade, 'direção esportiva' e planos futuros de comprar um apartamento pequeno para poder comprar um carro bem mais caro, acima do meu patamar de vida. Mas no fundo ela compreende minha paixão", tranqüiliza-se Eduardo.

A mesma sorte não teve Luiz Fernando Soares Rodrigues, 28 anos, colaborador do BCWS. "Meus namoros anteriores não duraram muito em virtude de um ritual que faço em todos os sábados pela manhã: lavar o carro. São nada menos que três horas passadas com o carro. Isso provocou ciúmes e alguns rompimentos. Mas hoje mudou e minha esposa compreende a necessidade de cuidar bem do carro, conservando-o."

Webmaster de outro site, Luiz chegou a sofrer da esposa, Célia, "algumas 'ameaças' de sabotagem do meu modem, mas aprendi a conciliar o tempo, e hoje meu micro e o modem estão a salvo". A esposa de Luiz "gosta de automóveis o suficiente para mantê-los. No entanto, estou começando a convencê-la da importância em ser uma apaixonada por carros. Está dando trabalho, mas é compensador, pois o resultado aparece rápido, e o carro agradece os cuidados recebidos", ele conta.

Francis ficou sem a chave de seu carro para ir a um encontro de clássicos, mas não se incomodou: "Peguei a chave do carro dela e fui"

Com Maurício Ricardo da Costa, 27 anos, noivo de Fernanda, a situação foi um pouco diferente: "Sempre gera um pequeno atrito, principalmente aos sábados, quando nunca consigo sair com ela à tarde por estar 'fuçando' no carro... Outro motivo é a reforma do apartamento, que alego 'não ter dinheiro para reformar'. Mas como ela diz, 'se não tem dinheiro, por que tem quatro carros?'", diverte-se.

Maurício defende-se: "Como todo hobby, toma boa parte do meu tempo disponível. Eu entendo que realmente deve aborrecê-la, porém de uma forma ou de outra, acho que isso sempre acontece, em qualquer relacionamento, seja jogando futebol, surfando ou qualquer outro hobby que ela não participe!"

Infelizmente, nem toda mulher partilha dessa opinião. Francis Castaings, 40 anos, separado, também colaborador do BCWS, passou por problemas seríssimos em virtude de sua paixão pelos clássicos... "Já sumiram com a chave do meu carro para que eu não pudesse ir a um encontro de carros antigos. Mas eu peguei a chave do carro dela e fui. Fiz curso na High School of Smart", diverte-se Francis. Ele também já enfrentou conflitos quando via corridas na TV ou estava escrevendo artigos para o site -- mas reconhece que em relacionamento anteriores a situação era "pior, bem pior".

A ex-esposa de Iran "não suportava carros", chegando a ameaçar suas revistas e o computador. Mas o admirava pelos elogios recebidos por seu trabalho

Iran Cartaxo, nosso consultor de preparação, 26 anos, já se envolveu em dificuldades bem maiores com o sexo oposto que as enfrentadas com turbos, nitros e comandos. A ex-esposa "nunca gostou de carros, nem tinha o mínimo interesse, nem os suportava. Ela ameaçou colocar fogo em revistas, destruir o computador, mas fazer greve à noite era a preferida dela", ele lembra com humor. Mais sério, Iran reconhece que "ela me admirava por entender assim de um assunto e receber tantos elogios por esse trabalho".

Esse estímulo já aconteceu em outras áreas e com outros homens. Com Gustavo Ruffo, solteiro, 22 anos, "foi ela quem me convenceu a tirar a carteira de motorista. Eu não tinha carro e só queria pegar carta quando tivesse o que dirigir. Mas sempre gostei de carros, e ela também." Já Roney Ramos, 25, também solteiro, diz que "outro dia eu perguntei se ela não se enchia de tanto me ouvir falar de carros, e ela falou que isso é perfeitamente normal para quem adora carros, e que gostava de ouvir!"

Que essa compreensão é o melhor a obter de um relacionamento, ninguém tem dúvida. Mesmo que seja para obter uma imprevista "colaboração mecânica" nas horas mais inusitadas... Carlos, o dono do Maverick, tem um caso para contar: "Certa vez quebrou a correia do alternador do meu carro, num sábado à noite, quando estava com a namorada. O problema foi resolvido com a meia fina da menina, que substituiu a correia quebrada por todo o final de semana. Uma outra vez houve uma pane elétrica e chovia muito. Minha namorada ficou segurando o guarda-chuva enquanto eu consertava o carro. Conclusão: leve sempre uma mulher ao seu lado. Você nunca sabe quando irá precisar dela", conclui.


P.S.: O autor deste artigo gostaria de estender-se um pouco mais. Mas já são 22h de sábado e, se não sair logo do computador, vai ter sérios problemas com a namorada...


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